Claudia Tajes: Usado na hora certa, um palavrão ainda é a válvula de escape mais inofensiva que há

Foto: Pexels
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Um dia, era criança, cheguei em casa cantando o Hino da Bandeira recém aprendido (ou quase) na escola. Salve lindo peidão da esperança, salve símbolo augusto da paz. Hino da Bandeira no pré-primário. O jeito foi repetir o que parecia ter escutado. Aos seis anos de idade, nada precisa fazer sentido mesmo – e mais tarde também não, como boa parte do Brasil provou ao cantar “Na madrugada, a vitrola/ Rolando um blues/ Trocando de biquíni sem parar”. Era “tocando B. B. King”, descobriu-se bem depois. Até então, para mim, Augusto era apenas um coleguinha de aula. Por que ele aparecia no hino? Nada ali me dizia nada, mas era preciso decorar a letra para o Dia da Bandeira. Nós, os pequeninhos, cantaríamos perfilados no pátio, antes de enfrentar os cansativos exercícios de C + A = CA do pré-primário.

Salve lindo peidão da esperança, salve símbolo augusto do paz. Ia passando pela sala sem uma preocupação maior que não a de pegar logo uma Susi para brincar, quando minha mãe interceptou o caminho.
– Como é que é? Que música
é essa?
– O Hino da Bandeira, tem que decorar inteirinho até amanhã.
– E o que foi que tu cantaste?
– Salve lindo peidão da esperança, salve símbolo augusto da paz.
– Repete, se tiver coragem!
– Salve lindo peidão da esperança, salve símbolo augusto da paz.
– Mas que mal-educada. Repete!
– Salve lindo peidão da esperança, salve símbolo augusto da paz.
– Vai lá na geladeira e traz a pimenta!

Compreendi na marra, e com bastante ardência, que peidão não era palavra, era palavrão. E que as meninas, por serem meigas e fofas, não podiam falar nomes feios assim. Em todas essas, faltou alguém explicar a dramática diferença que fazia um I ou um N entre um PE e um DÃO. Das coisas que depois a gente aprende com uma amiguinha mais esperta e morre de rir com a descoberta.

Minha mãe, que ao longo da vida foi se tornando a pessoa mais atualizada em tudo da família, encheu minha boca de pimenta com boas intenções. Agiu de acordo com a época, só isso. Consta que o adjetivo mais desabonador que o meu avô usava era “bobalhão”. Outros tempos. E outras pessoas. Se eu chamar alguns indivíduos que conheço de bobalhões, vai parecer elogio.

Sempre penso nessa história com carinho. Se a injustiça do castigo me atingiu em cheio, embora eu não conhecesse a palavra injustiça, não me traumatizou. Quando a pimenta parou de arder e eu parei de chorar, já devia ser hora da novela das sete – e eu que não ia perder a única novela à que podia assistir. A das oito não estava liberada para meninas. Mais tarde, minha mãe foi ao quarto e me deu um beijo estranho, beijo com abraço e silêncio. Acho que estava mais triste do que eu pelo caso da pimenta.

Dias depois, cheguei em casa repetindo os exaustivos exercícios do C + U = CU do pré-primário. Minha mãe me chamou em um canto e disse para não ficar falando aquilo. Era uma sílaba, mas também era um palavrão – o segundo na mesma semana. Melhor minhas irmãs menores não ouvirem, ela disse. Fica só entre nós. Por um tempo, ficou mesmo. Mas só até as irmãs menores entrarem no colégio também. Não há como fugir do palavrão. Usado na hora certa e com alguma moderação, ainda é a válvula de escape mais inofensiva que há. Inclusive, para o meu filho, quem ensinou os primeiros, fui eu.

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