Claudia Tajes: Vale desejar um amigo como o Gilmar para cada brasileiro em 2018

Foto: Pixabay
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Digite “Gilmar Mendes” no Google. Os primeiros resultados informam: Gilmar Mendes manda soltar fulano de tal. Começa com: “pela segunda vez em dois dias, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, mandou soltar o banqueiro do Opportunity Daniel Dantas, investigado por tentativa de suborno e crimes financeiros”. A notícia é de 2008.

Tudo o que se escreve sobre o Gilmar Mendes tem que ser muito bem pensado, senão ele processa quem escreveu por danos morais.

Digite no Google “Gilmar Mendes processa”. Assim, rapidinho, vão aparecer Carta Capital, José de Abreu, Luis Nassif e Monica Iozzi. Se alguém chamar o Gilmar de corporativista, amigo dos amigos ou colocar em dúvida a idoneidade dele, o juizão aciona. E ganha, óbvio. Longe de mim falar essas coisas, ainda mais que não posso arcar com a conta que a admirável Monica Iozzi pagou: R$ 30 mil para não se retratar publicamente. Caráter, que coisa linda.

Mas vamos a alguns personagens anti-ilustres que o Gilmar já resgatou do xilindró. O chefão dos ônibus do Rio de Janeiro, Jacob Barata, foi solto três vezes. A quem desconfiava de que o fato do Gilmar ter sido padrinho de casamento da filha do Barata pudesse influenciar nessa decisão recorrente, o juiz respondeu: uma coisa não tem nada a ver com a outra, os noivos já estão até separados. Junto com o seu Barata, três outros graúdos da máfia do transporte público carioca foram despachados para o conforto dos seus lares. E bota conforto nisso. Adriana Ancelmo, a das joias de milhões, mulher do ex-governador Sérgio Cabral, recebeu o benefício da prisão domiciliar. Miguel Iskin e Gustavo Estellita, envolvidos em pagamento de propina que afetou diretamente a área da Saúde no governo Cabral, acabam de ir para a domiciliar.

No total, nove envolvidos nas roubalheiras do Rio saíram da cadeia por ordem do Gilmar. O travesso Garotinho, que estava em greve de fome – talvez se recusando a comer biscoitos Trakinas, ganhou seu habeas corpus de presente de Natal. O juiz também mandou tirar a tornozeleira eletrônica da Rosinha Garotinho e acabou com o recolhimento noturno dela. Assim, a Rosinha poderá soltar fogos em Copacabana amanhã à noite. Quem não soltaria?

Por todas essas, vale desejar um amigo como o Gilmar para cada brasileiro em 2018. Alguém com quem seja possível contar sempre e que nos livre de todas as dificuldades, principalmente as mais cabeludas. Quem tem um amigo como o Gilmar tem, literalmente, habeas para tudo.
Mas agora me ocorre que este desejo talvez seja furado. O Gilmar atua nas esferas mais altas, as bem lá de cima. O pessoal aqui, trabalhando dignamente – e passando trabalho, é bom que se diga – não vai merecer a atenção dele. Deixa para lá. Melhor seguir sem desviar recursos, sem fazer tramoias, sem passar a mão no remédio dos doentes nem na merenda dos estudantes. Vamos sem Gilmar porque foi isso que mães e pais, a seu jeito, um dia nos disseram: quem não quer se incomodar que trate de andar na linha.

Um feliz 2018 sem Gilmar para todos nós. Porque o nosso país anda precisando de muita coisa – mas de Gilmares, com certeza, não.

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