Claudia Tajes: Vamos falar da dificuldade de ser velho em uma sociedade que cultua o novo

Cena do filme A Juventude: pelo direito de ser velho. Foto: Divulgação
Cena do filme A Juventude: pelo direito de ser velho. Foto: Divulgação

Assisti na semana passada à palestra da psicóloga Maria Célia de Abreu, que aos 40 e poucos anos se viu interessada na velhice. Desde então, ela se dedica a estudar e a escrever sobre os velhos – palavra que prefere a “idosos”. Para quem, como eu, achou um tanto agressivo, Maria Célia explicou: velho não é decadente, não é decrépito, não é senil. Velho é velho.

Agora com 73 anos, Maria Célia começou a palestra com a sentença do IBGE: dos 60 em diante, qualquer um é considerado “velho”. Velhos são os conceitos do IBGE, se me permitem. Em 2017, o Brasil tinha 30,2 milhões de velhos. Estima-se que, em 2031, essa população seja maior que a de jovens com menos de 14 anos.

Para além dos problemas de Previdência e Saúde, para citar só dois dos mais graves, Maria Célia falou da dificuldade de ser velho em uma sociedade que cultua o novo. Passou dos 40? Vai ter que se virar nos 30 para provar que a capacidade produtiva continua a mesma – e até maior, se alguém ainda considerar que experiência tem valor. Passou dos 50? Pode ir rezando para não ser demitido. Passou dos 60, dos 70, dos 80, de quanto for? É grande o perigo de você se tornar invisível. E isso, diferente do que acontece nas histórias de heróis, não é um superpoder. Muito pelo contrário.

A verdade é que ninguém está pensando em pequenas coisas que trariam mais conforto para essa fase da vida. Minto, o Japão, que é quase outro planeta, já está se adaptando às exigências de um mundo mais velho. Dois exemplos: mais tempo de sinal verde para os pedestres nos semáforos para que os velhos, em suas diferentes condições de locomoção, não precisem atravessar uma avenida em 10 segundos. Aberturas mais largas nas casas, prevendo que o cliente que comprou o imóvel pode vir a usar uma cadeira de rodas. Ou os pais dele, ou os avós que moram junto. Tudo muito simples, mas difícil de ser colocado em prática quando os lucros são mais importantes que as pessoas.

Outra complicação para quem envelhece é consumir. Roupas: se não for nas lojas bem específicas, é quase impossível comprar. A distribuição de gordura no corpo muda, diminui a agilidade, o tamanho aumenta, mas isso não significa que a velha senhora precise vestir um saco.

Os magazines conseguiram vencer a equação roupa bonita x preço, mas estão levando uma surra na questão roupa bonita x idade. Sempre me chamam a atenção os editoriais das revistas com sugestões de moda para 60+ e 70+. São perfeitos para a Gisele Bündchen velha. Minha mãe, que Clodovil a tenha, jamais conseguiria usar aquelas sugestões. Um pouquinho de vida real cairia bem nesses casos.

E a forma como a gente trata as pessoas de mais idade? Que vovozinho mais bonitinho, quer um biscoito? Que vovozinha linda, parece uma fofolete velha. Se falarem assim comigo, vou mandar longe. Para quem vive em um corpo que envelheceu, mas continua com a cabeça boa, deve ser um sofrimento receber o mesmo tratamento dado ao bebê da família. Mais um toque da palestra que vou levar para o envelhecimento, o dos outros e o meu.

E como chegar a uma idade adiantada sem se sentir sozinho e sem ser considerado um peso? Para Maria Célia, essa não é só uma responsabilidade dos outros, também depende do velho. O principal, segundo ela, é a qualidade das relações afetivas que se cultivou durante a vida. No final das contas, mais que o dinheiro, mais que a cultura, mais até que o poder, é isso que vai determinar uma velhice agradável ou triste para a gente. Concordo. Mas se alguém falar comigo como se eu fosse um nenê temporão para dizer “que gracinha de vovozinha, parece um bibelozinho”, eu mando longe.

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