Claudia Tajes: Veio o tempo de ter medo de tudo. Medo de intolerância. Medo de preconceito

Foto: Pexels
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Houve o tempo de ter medo de assombração. Quem nunca? Qualquer história com mortos que voltavam ou almas reencarnadas bastava para que os mais assustados dormissem com a luz acesa. Ou, insones de pavor, não abrissem os olhos durante a noite de jeito nenhum. Eu era dessas. A madeira estalava (como a madeira estala quando se é criança) e eu já imaginava um fantasma a caminho para me esganar. O que não faz o menor sentido. Se fantasmas são diáfanos e voam, como o assoalho estalaria? E que efeito teriam as suas mãos translúcidas no meu pescoço de carne, osso e medo?

Na sequência, houve o tempo de temer (não confundir com Temer) a Deus. Papai do Céu castiga quem não se comporta, era a máxima dos adultos, e eu já me via merecedora de penas terríveis. Uma praga de gafanhotos no meu quarto. Eu virada em estátua de sal. Ou transformada em barata – não, esse já é outro livro.

Depois houve o tempo de ter medo dos pais. Não sei você, mas eu sempre tinha alguma coisa a esconder. Era o trabalho de grupo que não existia senão como desculpa para passar a tarde na farra com as amigas. Era a dor de garganta inventada que servia para matar aula. Era o sentimento secreto por algum colega, inconfessável para qualquer um, quanto mais para o pai e a mãe. Eu andava na linha muito mais por medo de arrumar confusão em casa do que por convicção.

Então houve o tempo de não ter medo de nada. Nem dos mortos, nem dos vivos. Nem de confusão em casa, nem de Deus – que sequer era lembrado –, nem de passar a noite na rua, nem de protestar em passeatas, nem de amar, nem de não amar, nem de trocar de ideia, nem de coisa nenhuma. Tempo bom. Pena que passou rápido.

E veio o tempo de ter medo de tudo. Medo de não conseguir emprego. Medo de perder o emprego. Medo de não ser feliz nunca. Medo de não chegar a lugar algum. Medo de intolerância. Medo de preconceito. Medo de violência. Medo do que paira e ameaça. Medo, medo, medo. Parece que é assim que querem que a gente viva. E, para assegurar isso, algo superior agora regula todas as ações e reações do mundo.
O mercado.

Nos jornais da manhã, os comentaristas avisam: o mercado acordou instável. Ao meio-dia, as notícias são mais desanimadoras ainda. Queda de moedas, altas de juros, falências ao redor do planeta, tudo por causa do mercado. Se o mercado espirrar em Hong Kong, pode ter certeza de que vai respingar diretamente no pequeno salão de beleza que você montou com as economias de uma vida inteira no seu bairro.

O mercado reage bem. O mercado está sensível. A saída de Fulana deve acalmar o mercado. O mercado vê com bons olhos a entrada de Fulano. O mercado exige um novo perfil profissional. Acordos políticos desequilibram o mercado. O mercado quer que o governo tome medidas duras. O mercado não fará concessões.

O mercado não é pop e não poupa ninguém.

Um dia, pedi para que uma jornalista de economia definisse o mercado para leigos. Ela falou com seriedade e por horas, usando palavras como onipresente, onipotente, onisciente – nas aulas de catequese, esses termos definiam outra entidade. No fim das contas, depois de ouvir coisas escabrosas e cabeludas (que não repito aqui para não espalhar o pânico), fui embora achando que Abracurcix, o chefe da pequena aldeia gaulesa do Obelix, era feliz por ter, como único medo na vida, que o céu lhe caísse sobre a cabeça.

Imagine se fosse o mercado.

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