Claudia Tajes: “Vida adulta, quando qualquer febrinha tem um efeito devastador”

Foto: Pexels
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Acordar com febre. Quem nunca?

Quando se é criança, apesar do mal-estar, é bom. Sendo a febre causada por um resfriado ou reação de vacina, claro. Ninguém aqui está falando de doenças graves. Criança que acorda com febre, ainda mais se a aula for de manhã, no inverno e chover, está quase no paraíso. Lembro direitinho da sensação de ficar na cama com álibi e ainda os cuidados da mãe. Quando se tem mais irmãos, qualquer motivo para um tratamento diferenciado é muito bem-vindo. Os outros torcem para pegar gripe também – o que sempre acontece.

Lá em casa, o que um pegava, passava para todos. A pobre mãe acumulava as funções de enfermeira por muitos dias.

Já para o adolescente, naquela fase em que a vontade própria precisa superar a dos pais, febre só atrapalha. Em geral, surge como consequência de uma gripe que não mereceu cuidado algum e, pior, em um sábado, quando a noite já está devidamente combinada. Vai convencer um adolescente febril de que é melhor ele ficar em casa. Todos os argumentos são rebatidos com “eu já estou bem”. Dependendo da linha dos pais, ele, ou ela, saem mesmo. A piora será inevitável e, na segunda, dia de prova, ele, ou ela, dirá que não pode ir porque a febre aumentou.

E, então, vem a vida adulta. Quando não dá mais para ficar na cama por causa de um mal-estar. E quando qualquer febrinha tem um efeito devastador. São apenas 37º, mas dói tudo, a cabeça, a garganta, as costas. No trabalho, enquanto clientes para atender ou demandas a cumprir não podem esperar, a pessoa é praticamente um zumbi, só rezando por um pequeno intervalo para tentar se recompor. E isso que existe a vacina da gripe, cada vez mais necessária nesses tempos de vírus resistentes. Por alguma razão – ignorância, talvez –, eu sempre adio e acabo não tomando. E olha que ela é tetravalente, quatro chances diferentes de proteção. Neste exato instante, enquanto o mundo aproveita o solzinho de inverno e a temperatura mais amena de um agradável final de semana, eu vejo TV no escuro e me lamento por não ter ido ao posto. Mas, no ano que vem, ah, no ano que vem, serei a primeira da fila. Ou não me chamo Fabrício Carpinejar.

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Dois amigos que me acompanharam nesses dias de gripe com seus livros, os dois poetas e roteiristas. Tarcísio Lara Puiati, que atualmente escreve a novela O Tempo Não Para, lançou Bagaceira, poemas feitos de fragmentos do dia a dia, pela editora Sete Letras. Já Bruno Lima Penido, que estava na equipe de Malhação, apresenta Mordidas por Dentro, prosa poética para corações dilacerados, da editora Instante. Ambos à venda nas melhores lojas e também pela internet. Do Bruno: “Se você tem problemas sentimentais, alegre-se. Você faz parte da fatia privilegiada da população que tem um amor. Só quem tem um amor de verdade pode padecer de problemas relacionados a ele”. Perspectiva, como se sabe, é sempre meio caminho andado.

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Este domingo é Dia dos Pais, e este é um livro sobre não ser mais um. Em A Criança no Tempo, de Ian McEwan, um pai tem sua filhinha de três anos roubada dentro do supermercado. Aceitar essa realidade, enfrentar o casamento depois disso, sobreviver ao quarto vazio da menina, tudo é verdadeiro e doloroso, e a gente só larga o livro na última página. Perfeito para dar de presente para o pai e para fazer com que a febre e a gripe passem para o segundo plano. Nada como o poder de um bom livro para esquecer as pequenas mazelas.

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