Claudia Tajes: A vida é um clichê

João Marcelo Osorio, Divulgação
João Marcelo Osorio, Divulgação

Excepcionalmente neste domingo, com a debandada geral rumo às praias ou para onde mais não se ouça o som das cuícas e dos tamborins, a série de verão da coluna com perfis de garotas teve que ser interrompida. Não sobrou sequer uma alma para ser entrevistada. Ninguém mandou querer ficar em Porto Alegre no Carnaval, isso depois da tempestade que derrubou árvores, destelhou casas, deixou as ruas com cara de filme de invasão zumbi e meio mundo sem luz, água e internet. 

Escrever tem sido complicado. Ando sofrendo de falta crônica de originalidade. Parece que cada frase que vai para o papel leva junto um clichê. Mesmo que eu lute, eles são mais fortes que eu. “Mesmo que eu lute, eles são mais fortes que eu”, aliás, é um clichê dos mais escandalosos.

Foto: Theo Tajes
Foto: Theo Tajes

Decidi que passaria uns dias em Porto Alegre e cheguei horas antes do vendaval da sexta, 29. A impressão foi a de entrar em uma sauna. “Entrar em uma sauna” para se referir ao calor: clichê. Pensei que, indo para casa, fugiria da canícula ligando o ar-condicionado. Mas, clichê de calorento, o aparelho não estava funcionando. Importante dizer que, desde a mudança para um novo apartamento, ele nunca mais havia funcionado. Apesar de ter cobrado um preço mais alto que a média, o instalador executou o legítimo serviço porco. Por fim, cobrou ainda mais para trocar uma peça que, em tese, deveria deixar tudo nos trinques, disse que já voltava e nunca mais apareceu ou atendeu o telefone. Prestador de serviço desonesto, um triste clichê na vida do consumidor.

Em casa, calor escaldante. “Calor escaldante” é clichê. O jeito foi sair. Já havia o que se convencionou chamar de “ventinho de chuva” dando os ares. Da janela do restaurante era possível ver os raios riscando o céu (clichê) e a água caindo forte. Mas jamais daria para imaginar o estrago que estava em curso na rua.
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Fico feliz por estar em Porto Alegre nesses dias complicados. Não há muito o que fazer, mas sempre se pode contribuir – nem que seja não reclamando em causa própria, como se viu no caso da padaria que foi protestar no Facebook e atraiu a antipatia geral. Em compensação, não faltaram atitudes gentis. Quem não estava sem abastecimento abriu a casa para os sem-banho. Alguns supermercados e shoppings liberaram o uso do wi-fi para os sem internet. E não foram poucos os que ofereceram café da manhã e lanches para os funcionários que trabalhavam nas ruas. A gente fala mal do homem, mas, quando precisa, a generosidade aparece. É uma esperança.

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Agora, azar mesmo tem um turista com quem falei no sábado de manhã, andando pelo Centro para ver os tantos estragos da tormenta. Era a segunda vez dele em Porto Alegre. Na primeira, em julho de 2013, o paulista de origem japonesa desembarcou no Salgado Filho enquanto, a poucos quilômetros, o Mercado Público ardia em chamas (clichezaço). Dessa vez desceu no aeroporto minutos antes da tempestade despencar. O pobre homem se sentia até um pouco culpado: seria ele a causa das desditas? Pelo sim, pelo não, talvez fosse bom identificar o vivente e nunca mais deixá-lo entrar na cidade. Todo cuidado é pouco, o seguro morreu de velho e um porto-alegrense prevenido vale por dois.

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