Do fundo da gavetinha da memória

De vez em quando saem algumas palavras da minha boca que eu não faço a menor ideia de onde estavam guardadas, só sei que cheiram a mofo, de tão velhas. Digo sem pensar, e só depois me dou conta de que ninguém mais fala assim, que elas já estão obsoletas.
Um exemplo: cheguei na sala de aula e disse que queria, para a próxima semana, que todos me entregassem seus textos datilografados. Alguns alunos riram, outros ficaram me olhando bem sérios, com olhos indagativos. Por certo não sabiam o que significa datilografia. Óbvio, já nasceram na época dos computadores e da digitação. Máquina de escrever, para eles, é coisa de museu. Logo, concluo que eu também sou.
Há poucos dias emprestei meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo (TCC) para um aluno. Ele começou a folhear, riu e comentou:
– Ele foi todo escrito à máquina?
Sim, não existia outro jeito. E quando errávamos, apagávamos com errorex, uma espécie de tinta branca, e depois assoprávamos, esperávamos secar e escrevíamos por cima. Uma trabalheira danada…
Noutra oportunidade, eu não conseguia abrir a gavetinha (que deve ter um nome, mas eu desconheço) do aparelho de DVD, que emperrou. Pedi socorro para o meu filho, como sempre, e disse:
– O pior é que a fita é da locadora, e ficou presa aí dentro.
– Fita mãe? Nossa, isso era do tempo do videocassete!
Era mesmo, mas volta e meia digo fita. Acho que é porque o videocassete ficou muito marcado na vida da gente – foi uma verdadeira revolução. Pela primeira vez podíamos ter cinema em casa, era só ir à locadora mais próxima e escolher a fita (e rebobiná-la antes de devolver, mandava a boa educação). Ainda podíamos gravar os programas de TV para assistir mais tarde. Suprassumo da tecnologia!
Mas ainda tem coisa pior, confesso. Dia desses uma amiga queixou-se, dizendo que eu nunca mais tinha feito contato _ o que não era verdade. Sentindo-me injustiçada, respondi:
– Canso de te mandar bilhetinhos pelo Facebook, só que tu nunca respondes.
Ela riu muito do meu “bilhetinho”.
– Bilhetinho a gente trocava no tempo de colégio – retrucou.
Às vezes, quando quero pedir um pendrive, acabo falando disquete. E todos se matam de rir. E eu rio junto, fazer o quê?
Tá certo, os tempos mudaram, os objetos também – e eu sei os nomes corretos das coisas, não sou tão dinossaura assim – mas de vez em quando alguma gaveta da memória se abre e as palavras antigas escapam e se espalham por aí.

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