Era uma vez uma linda história de amor…

Vinicius de Moraes só escreveu o Soneto de Fidelidade – “Que eu possa dizer do amor (que tive) que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” – porque não conheceu um homem chamado Rui, capaz de viver um amor que transcende a vida.

A passos lentos, respiração ofegante e pouco agasalhado para o frio daquela tarde de inverno, o velho senhor subia devagar o morro do Cemitério de Rio do Sul. Nas mãos, levava apenas uma florzinha, provavelmente roubada de algum jardim do caminho.

Rui mora longe de onde descansam os mortos. Anda pelo menos uma hora e meia para percorrer o trajeto – que cumpre, com prazer, todos os domingos. Não falta uma semana sequer. Inverno e verão, com chuva fria ou sol inclemente.

Caminhou entre as sepulturas, parando de vez em quando para reverenciar algum amigo ou parente que já se foi. Depois, seguiu para o seu encontro. Na lápide do túmulo da mulher, três palavras resumem tudo o que ele sente, desde a hora em que acorda até o sono chegar, à noite: “Nina, saudades eternas”.

O velho senhor se abaixou, arrumou a flor no vaso e ficou ali um tempão. Parecia conversar, em voz baixa, com a companheira da vida inteira, que morreu há pouco mais de três meses. E quem duvida que ela realmente lhe responda?

Só depois de cumprido o ritual, já se preparando para iniciar a caminhada de volta para casa, onde mora sozinho mesmo tendo mais de 90 anos, Rui notou a presença de alguém lhe observando, sentado em um banco.

Ele se aproximou, sorriu e cumprimentou.

“Boa tarde, como tem passado?” – como é de costume perguntar, por aquelas bandas. Decidiu sentar para uma prosa rápida. Ajeitou o aparelho de surdez para não se perder na conversa e, minutos depois, como que querendo recordar o passado (talvez até para não esquecê-lo entre tantas lembranças já um pouco confusas), começou a compartilhar sua história. Uma linda história de amor, daquelas que Vinicius de Moraes talvez nem sequer ousou imaginar.

Era começo da Segunda Grande Guerra. Nina tinha 16 anos. Rui, três a mais. Os pais dele eram donos de um hotel em Itajaí, cidade portuária com boas perspectivas de crescimento. Muito estrangeiros estavam fugindo da crise na Europa e se estabelecendo na região.

Rui ajudava a família a gerenciar o hotel, e Nina foi contratada para trabalhar lá como babá de duas crianças, filhas de um casal de fora que chegava à cidade.

“Foi bater o olho e me apaixonar”, contou Rui, com o olhar tão distante que daria para jurar que ele voltou a 1940 por alguns instantes.

Seu amor foi correspondido, e o namoro escondido logo rendeu uma gravidez. Escândalo! O filho do dono do hotel com a babá! Muitas pessoas o aconselhavam a não casar, pois poderia encontrar outra saída. Mas ele só pensava em viver com sua Nina e criar aquela criança. “Amei aquela mulher desde que a vi pela primeira vez, e sabia que seria para sempre”, contou.

Vieram outros filhos, depois os netos multiplicaram a felicidade do casal, que continuou unido, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. Doença, aliás, que levou Nina aos 90 anos de idade – mais de 70 deles vividos ao lado do companheiro.

Rui não se referiu à morte de Nina como o fim. Eles só não estão morando juntos temporariamente. Seu lugar, ao lado dela, já está até preparado, para quando chegar a hora. Nada de tragédia, nada de choro. Ele agradece a vida que tem e, principalmente, a felicidade de ter vivido um grande amor.

Começou a fazer ainda mais frio, e no horizonte o sol ficava cada vez mais tímido. Rui disse que precisava ir embora, pois a caminhada seria longa. Não aceitou carona. “Andar faz bem para as juntas”, explicou. Antes de sair, voltou ao túmulo da amada, atirou um beijo com a palma da mão e disse, para quem quisesse ouvir: “até breve, minha querida”.

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