Fabrício Carpinejar: dentro do quarto

Vejo que você se acorda pelo barulho da chama do gás na cozinha. Entra no banho. Minha vontade é lhe dar o beijo de bom-dia. Mas não vou até lá ainda, fico imaginando, fico lhe antecipando, fico lhe desejando devagar. Provoco minha ansiedade. Eu me aquieto na sala ouvindo os sons de sua manhã. Finjo que estou escrevendo este texto. Você não sai do quarto imediatamente. Tomará meio copo d’ água que está na cabeceira. Vai tirar o celular da tomada e ver se existe algum recado urgente.

:: Veja outras colunas de Fabrício Carpinejar

Abrirá uma fresta da janela para espiar o tempo.  Sua figura surge nítida em meus pensamentos, passo a passo de sua ordem. Sei que, quando se espreguiçou, deitou em meu lado para fungar meu travesseiro. Jamais desce do seu lado da cama, mas do meu. Para imitar meu jeito de andar. Para sermos um só. Acordamos com o pé direito um sobre o outro. Não preciso de olhos para descobrir o que está fazendo dentro do quarto, pois você já mora na minha imaginação. A imaginação é a memória dos amantes.

Não tenho pressa para socorrer nossa intimidade. Desfrutamos da telepatia do pássaro com a árvore. Estará com o turbante na cabeça, minha rainha, minha imperatriz.  Sentará de volta na cabeceira da cama para secar os cabelos. Segura o secador com seus joelhos. Seus joelhos foram o seu cabelereiro durante toda a vida. Seu pajem. Seu amigo de fofoca.

 

O vento quente contornará a franja, para definir a leveza e o brilho dos fios.  Não abandona o quarto até se arrumar inteira. Já me disse, numa tarde dessas: “eu me arrumo toda esperando você me desarrumar”. Sorri com a generosidade da frase.  Agora se põe no chão, com nécessaire à tiracolo, para pintar os olhos e a boca.

 
Escutará suas canções prediletas de Dean Martin neste momento. Colocará o fone no ouvido e fará sua oração ao jazz. É capaz de cantar parte de alguma letra enquanto repassa o tom uniformemente nos lábios. Seu inglês é intocável. Ainda não mexeu o trinco, não avisou ninguém que acordou.

 
Quando o homem deixa a cama, todo aquele espaço vira camarim para sua mulher. As luzes se acendem, os espelhos acordam, os armários são paredes secretas para antigas vidas, os cabides conversam entre si. Eu já estou esperando há meia hora que venha. Não me afobo. Não me apresso. Repito a expectativa de nossa primeira vez todo dia. Você tem o dom único – somente seu – de entrar pela casa a partir da porta do quarto.

 

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna