Fabrício Carpinejar: Eva foi a mais triste das mulheres

Não há maior solidão do que a de Eva.
Ela não tinha mãe. E não podemos considerar a costela de Adão propriamente uma madrasta.
Ela gerou uma penca de filhos sem ter onde deixá-los no final de semana para desfrutar de um cineminha e de um jantar romântico.

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Não dividiu com ninguém a alegria do primeiro beijo, da menstruação chegando, dos seios crescendo, do exame positivo da maternidade.
Precisou aguentar um marido que não morria – viveu 930 anos – sem a possibilidade de desabafar os problemas do relacionamento, como quando Adão puxava seu cabelo ou se metia com a bebida ou desejava gastar todo o salário em briga de galos.

Não contou com conselho materno para esfriar a rivalidade entre Caim e Abel.
Não recebeu dica de nome para suas crianças. Sete prova que não restava mais criatividade, já recorria à numeração.
Não ganhou explicação de método anticonceptivo antes de sua primeira experiência sexual.

Jamais acertou a receita do bolo de fubá simplesmente porque não conheceu nenhuma vó.
Ficou sozinha para enfrentar a lábia da serpente.
Nunca pôde usar a expressão “nem por cima do cadáver de minha mãe”.
Não se sentia ofendida quando era xingada na selva de “filha da p…”.

Não teve sequer uma mãe para mentir e comer escondido o fruto proibido.
Não pôde seguir um exemplo ou ser a ovelha negra da família. Não cresceu na adversidade: não suportou pressão para se casar, prestar vestibular e seguir carreira.
Não havia graça nenhuma em fazer terapia sem uma mãe para colocar a culpa.

Terminou pagando mico ao usar pele de animal para passear no Éden, pois não herdou roupa alguma.
Tombou com salto alto nas trilhas, desfalcada de um tutorial de mãe.
Uma vez por mês, explodia em TPM, chorava, arcava com cólicas, morria de vontade de chocolate, sem saber o que acontecia com seus hormônios.

Não entendia a diferença entre cócegas e orgasmo.
Não desfrutava da opção de se separar do marido e voltar para a casa da mãe.
Eva foi, sem dúvida, a mulher que mais sofreu no mundo.

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