Fabrício Carpinejar: o sofrimento não é exclusividade de ninguém

Acabamos nos envergonhando por pensar que os outros não têm problemas.

Esquecemos que a vida é generosa para todos os lados nas dívidas e nas dúvidas.

Ninguém escapa do conflito, do trabalho e das adversidades.

O sofrimento tem o cacoete de fingir exclusividade, mas ele também mora com o nosso vizinho, com o nosso colega de trabalho, com a vendedora do armazém da esquina, com o governador eleito.

Desde que me separei, eu fugia do ourives das alianças.

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Eu havia pedido que desenhasse o par de joias imitando o encaixe do rolamento de um navio: pinos de um se encaixando nos furos do outro.

Os amigos me aconselharam a encomendar naquela loja, pois ele, além de um grande artista, dava sorte para o casamento: seus clientes raramente se divorciavam.

Não queria que ele descobrisse que não ajudei seu aproveitamento, que puxei suas estatísticas para baixo, que não me tornei um case de seu sucesso.

Buscava me livrar do encontro à queima-roupa e da única pergunta que nos unia:
– Como vai o lindo casal?

Meu medo é que ele, ao apertar minha mão, notasse a ausência da aliança.

Eu me encabulava por não corresponder suas expectativas, como se ele fosse um padrinho oculto, um cupido adulto, um fiador do amor.

Tinha duas missões em Porto Alegre: não frequentar os mesmos lugares da ex e do criador das alianças.

O que me facilitava era que ele contava com dois metros de altura, um farol de alcance imediato na multidão.

Via o artesão num restaurante do shopping Praia de Belas e dobrava em direção ao toalete.

Via o artesão num bar da Cidade Baixa e me camuflava na pista de dança.

Via o artesão caminhando na 24 de Outubro e atravessava a rua.

Acho que ele reparou que desaparecia em todos os lugares. Homem não é discreto quando tem medo.

Eu escolhia sempre um atalho para evitar cumprimentá-lo. Ele se transformou num SPC matrimonial, num credor imaginário.

Até que sentado no café Dometila, na Praça Maurício Cardoso, de costas para a calçada, sinto um braço fechar meus olhos e uma voz brincar:
—  Adivinha quem é?

Enrubesci. A voz com sotaque alemão era inconfundível. Menti que desconhecia com a esperança de decifrar rapidamente a equação do túnel do tempo e do buraco da minhoca.

— Sou eu, ele riu.

Daí me encarando sem perdão, lançou a questão:
– Me conta como vai o casal?

Baixei a cabeça e assumi:
— Desculpa, nos separamos.


Ele acusou o golpe, puxou a cadeira e sentou perto de mim:
— Eu lhe entendo, também me separei. Que tal trocar o café por algo mais forte?
— Garçom?

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