Fabrício Carpinejar: Que lance!

Eu demorei a perceber, mas sou um narrador esportivo das manhãs de minha casa

Foto: Félix Zucco

Amar é narrar. Amar é descrever passo a passo de nossa companhia. Eu demorei a perceber, mas sou um narrador esportivo das manhãs de minha casa.

Todos que amam são. Não é uma exclusividade vocacional. Não é um dom incomum.

Logo que desperto, vou descrevendo as ações e reações de minha mulher. Como se ela não soubesse o que está fazendo. Tomo um microfone imaginário, ajeito o timbre e deslindo suas lindezas.

“Juliana acorda, ela se espreguiça, ela está de bom humor ou de mau humor? Vamos ver… Abrindo os olhos… Ela se levanta devagar! Quando levanta rápido, está braba. Quando levanta aos poucos, ronronando e me abraçando é sinal de alegria. Feito: está de bom humor, ela ri para mim. A torcida vibra.”

Não lembra uma partida de futebol?

“Juliana busca um copo de água e vem tomar no quarto para olhar o que vestir, ela nunca escolhe as roupas com antecedência, ela sempre procura as roupas antes de sair, agora é o momento decisivo do pênalti, ela olha as traves do armário, analisa o que vai usar, chuta com confiança uma combinação e gol, gooooooooool de Juliana, gooool”.

Quem ama pensa em avisar o outro da própria vida – o que é engraçado e curioso.

Quem ama se vê no direito de devolver a consciência para seu amado.

É a pretensão de informar o outro dos seus movimentos. Como um espelho verbal. A voz passa a ser o espelho mais leal do quarto.

Não há intervalo no jogo de reflexos: tento ser ela, adivinhar seu estado emocional e sua vontade de viver. Eu me afasto de meus

interesses para encarnar uma personagem e compreender suas escolhas.

O amor me concedeu uma técnica apurada de observação. Uma sensibilidade para antever dribles e contraataques. Pontuo suas caras e bocas com eloquência radiofônica. Desfaço ironias, despejo gentilezas.

Não me limito ao papel de narrador, também cumpro a função de comentarista. Além de detalhar o andamento

da véspera do trabalho, dou pitacos no uniforme, na situação do gramado e nas estratégias em campo.

“Não acha que está frio? Pode precisar de um casaco. Calma aí, deixa espiar a web…Há previsão de chuva de tarde, melhor uma

botinha”.

Isso quando não invento de atuar como repórter em campo, armando entrevistas na beira da cama ou da mesa do café.

“Está tudo ótimo? Dormiu bem? Sonhou com o quê?”

Todo dia é um suspense para desvendar seu temperamento. Mas não estou sozinho, não duvide, ela faz o mesmo, questionando minhas mínimas e estranhas atitudes. Como a de jamais acordar em silêncio.

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