Marcos Piangers: Pra onde vamos

Arquivo Pessoal
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A piada recorrente pra todo mundo que me perguntava porque diabos eu troquei a paradisíaca Florianópolis por Porto Alegre era: “Estou fugindo dos gaúchos”.

É cômico porque, realmente, a ilha de Santa Catarina está cheia de gaúchos (minha mãe inclusa). E cheia de paulistas, cariocas, argentinos. Florianópolis está cheia de gente. Às vezes, eu acho que tem gente demais.

Na minha cabeça, se tudo desse errado em Porto Alegre (e quase deu), voltaria para a ilha paradisíaca onde todos querem morar. Mas se há uma coisa que não podem reclamar dos gaúchos é sua recepção. Demorou uma semana pra estar comendo churrasco na casa de pessoas que eu nem conhecia. Mais um mês e eu já tinha melhores amigos aqui. Em um ano, minha esposa já falava “tri legal”, expressão que me recuso a usar até hoje, por respeito a gaúchos e catarinenses. Não tomo chimarrão, mas me apaixonei pelas cervejas gaúchas. E quando estou chegando de avião, olho pela janela e vejo o Beira-Rio. Me sinto em casa.

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Foi aqui que cresceu minha filha, 11 anos recém completados. Levei-a a todos os piores passeios que pais de primeira viagem fazem com seus filhos pequenos: feiras gastronômicas lotadas, festas de municípios vizinhos, parque de diversão da Redenção no domingo, Itapuã em um dia de calor absurdo, não naquelas reservas em que há limite de visitantes, mas em uma praia mesmo, com areia que queimou nossos pés e uma água marrom com fundo de lodo. Certamente, um domingo inesquecível.
Com o tempo, descobri o melhor da cidade. Fomos andando até shows de rock inesquecíveis, minha filha na minha garupa. Ela viu o Ringo e cantou Yellow Submarine com toda a força. Achamos nossos bares favoritos, minha filha adotou o cappeletti do Puppi Baggio como o melhor da cidade. As eclairs de chocolate do Press Café são nosso guilty pleasure. Às vezes, vamos no cinema do Barra apenas para comprar pipocas. Pelo menos uma vez por mês vamos ao maravilhoso Iaiá Bistrô. Que atendimento simpático, que pratos deliciosos. Dá uma vontade de morar lá.

Isso foi até esses dias. De uns tempos pra cá, o jornal deu umas notícias estranhas. Uma vizinha teve o carro roubado. Morreu um senhor que passeava com o cachorro por uma bala perdida. Deu um tiroteio em uma rua que pegamos todos os dias. A gente foi ficando com medo da cidade. De noite, não passeamos mais de mãos dadas pelo bairro. Foi me dando uma saudade de uma ilha paradisíaca, mas a ilha paradisíaca não é mais tão paradisíaca. Tem trânsito, violência, poluição. Não sei o que dizer pras pequenas.

Se der tudo errado, pra onde vamos?

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