Marcos Piangers: Pai de selfie

Colunista estreia na revista Donna com crônicas semanais

Giselle Sauer/Divulgação
Giselle Sauer/Divulgação

É uma vitória pra todos nós essa onda de pais mais participativos, homens com sua barriguinha de cerveja e cofrinho aparecendo, tentando dar conta das crianças nos parquinhos da cidade. Não pelo cofrinho, realmente aquilo não é uma vitória, mas pela dedicação que alguns pais estão dando pra família. É uma evolução.

Nos anos 80, os pais pareciam distantes demais, ocupados demais, sérios demais. Um amigo me disse esses dias: “Meu pai nunca foi ver uma apresentação minha no colégio!”. Meu amigo acompanha todas as apresentações do filho e chora em todas. Meu amigo acompanha o filho em todas as aulas de esportes, vibra na aula de natação, torce na aula de futebol. O filho dele está sempre no banco de reservas, e ele continua gritando: “Boa, filhão! Assim que se senta no banco! Você é importante pro time”. Meu amigo é realmente atencioso, companheiro, presente. E ainda tem dúvida: “Será que estou fazendo certo? Meu pai não fazia nada disso. Será que faz bem eu estar sempre apoiando meu filho?”.

Com algum equilíbrio, por favor, que senão essa criança vai ficar se achando o rei, é claro que você está fazendo certo. Nunca uma educação distante, fria, ausente, vai ser melhor que uma educação amorosa. Claro, cuidado pra não fazer todas as vontades do garoto, limites sempre que ele estiver mal-educado, mas você só vê esse tipo de coisa se estiver lá. Prestando atenção.

Prestar atenção significa, por exemplo, ficar menos no celular. Uma vez estávamos fazendo um bolo, eu e minha filha, e eu queria tirar foto de tudo. A hora de passar manteiga na forma, agora batendo a farinha, colocando o chocolate. Na minha cabeça ficaria um lindo gif animado pra colocar no Instagram. Foi quando minha filha disse uma frase que levo pra sempre: “Pai, vamos tirar menos foto e aproveitar mais a vida?”.

Seria lindo postar todos os momentos que passo com minhas filhas. Chuva de likes, é o que seria. Dezenas de emojis amarelos com aqueles olhos de coração. A vida ao lado dos filhos é fofa, é linda, crianças são incrivelmente fotogênicas, quando querem. (Porque às vezes não querem. Normalmente, crianças não param de se mexer na hora de tirar fotos. A imagem fica toda borrada. Só existe uma forma da criança ficar parada: quando você quer fazer um vídeo com ela se mexendo).

Mas a vida não é aquilo que está no Instagram. O Instagram não tem cheiro de cocô, não tem casa toda bagunçada, não tem chulé de criança que não toma banho há dias. O celular, muitas vezes, cria uma parede entre você e a criança. Você tira a foto, depois fica escolhendo o filtro, recorta os cantos, aumenta o contraste, coloca mais cor. Enquanto isso, a vida está acontecendo. Você posta a foto, confere os comentários, aguarda as curtidas. Enquanto isso, a vida está acontecendo. Você responde uns comentários, aproveita pra postar a foto no Facebook também, dá uma olhada na timeline. Enquanto isso, a vida está acontecendo.

A vida está acontecendo.

Outras colunas de Marcos Piangers em Zero Hora
:: Cuide da sua própria vida
:: Você não está louca
:: Criança chora

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna