Mariana Kalil: Aparelho do preconceito

Foto: Pixabay
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Gosto de conversar com pessoas mais velhas. Elas têm muito a ensinar – e algo raro hoje em dia: sabem escutar. Pessoas de mais idade (e pesquisas comprovam esta afirmação) administram melhor os conflitos e são mais sábias em aceitar as incertezas inevitáveis da vida.

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BENTO É O MAIS VELHO

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ELE TEM 16                               NINGUÉM ME OUVE

Dia desses, em uma reunião dos meus pais com amigos, entrei de gaiata na rodinha de conversa e fiquei ali ouvindo o que diziam os mais velhos. Um deles, médico como meu pai, lamentava o fato de nem eu nem meus dois irmãos termos trilhado o caminho da medicina. Jamais pensei em fazer Medicina, esta é a verdade. Sempre odiei estudar, fecho os olhos na hora de tirar sangue e nunca tive a mais nobre das virtudes exigidas por um médico de respeito: a capacidade de doação.

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SEM LIMITES

Interrompi a conversa e comentei que hoje, quase 30 anos depois de ter prestado vestibular para Jornalismo, lamentava profundamente minha falta de dom para a Medicina. “Geriatria, teria cursado”, respondi. Recebi muitos olhares de espanto, sobretudo de dona Ceres.

Mature Caucasian woman yelling with an angry expression

GERIATRIA, MARIANA?

Dona Ceres, uma senhora altiva, vaidosa, bonita no alto de seus 96 anos, demonstrou um interesse absoluto em conhecer melhor minha atração por esta especialização que se dedica ao cuidado de pessoas idosas. Iniciamos uma conversa paralela em que relatei minha admiração pela terceira idade e mencionei uma frase de Victor Hugo, um dos maiores escritores da França do século 19, que sempre me acompanhou: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe; a miséria de um rapaz interessa a uma rapariga; a miséria de um velho não interessa a ninguém”. Geriatria, dona Ceres, porque poderia contribuir para minimizar este sentimento.

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HEIN??!!

Do outro lado da mesa, outra senhora, três décadas mais jovem do que Dona Ceres, queria participar da conversa. O problema é que ela não escutava. Estava sentada na mesma mesa (detalhe!), o ruído ao redor não era alto (ressalte-se!). Mas ela não escutava.

– Estou surda! – lamentou. – Estou completamente surda! – repetiu.

– Simples, minha filha – respondeu Dona Ceres. – Faça como eu: coloque um aparelho auditivo.

– Nem morta!

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PREFERE CONTINUAR SURDA?

Não foi a primeira nem a segunda nem a terceira pessoa de meia-idade que testemunhei com dificuldade para ouvir e com resistência em usar aparelho auditivo. Não convivemos diariamente com gente usando óculos? Dos mais diversos modelos, cores e armações? Existe algum preconceito em relação a isso? Até onde eu sei, nenhum. Inclusive, é fashion. Por que, então, esse fantasma do aparelho auditivo? Acredite se puder: uma pessoa portadora de deficiência auditiva demora, em média, seis anos para decidir utilizar um aparelho.

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SEIS ANOS!!

Somente 40% dos portadores de problemas auditivos reconhecem que ouvem mal. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, 800 milhões de pessoas no mundo – 15 milhões no Brasil – possuem problemas de audição. O aparelho auditivo, contam especialistas, ainda é tido como uma punição perante a sociedade.

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DÁ PRA ACREDITAR?

Assim como modernas marcas, modelos e grifes de óculos de grau, atualmente existem avançados aparelhos auditivos, com tecnologia digital, bem pequenos e quase imperceptíveis. Não ofendem a vaidade de quem usa. Dona Ceres usava um. Graças a ele, conseguia comunicar-se, ouvir e ser ouvida, esbanjar sabedoria e atrair todos os olhares e interesses para si. Graças ao aparelho auditivo, Dona Ceres não estava alheia ao mundo ao redor, continua inserida e conectada (para usar uma palavrinha bastante recorrente!) na vida em uma sociedade cada vez mais veloz. Graças ao aparelho auditivo, Dona Ceres presenteava a todos com o conhecimento e a sapiência de seus 96 anos de vida. Graças ao aparelho auditivo, Dona Ceres era a mulher mais linda daquela noite.

 

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