Mariana Kalil: Mães arrependidas

Mulheres que não são mães costumam escutar uma frase muito comum: “Você vai se arrepender de não ter tido filhos”. A socióloga e antropóloga Orna Donath, da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, também ouviu a frase – e a partir dela resolveu fazer seu estudo de doutorado.

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O objetivo de Orna era entender melhor a relação entre arrependimento, maternidade e sociedade. Já havia estudos acadêmicos sobre mulheres que se arrependiam de não ter tido filhos, mas ela percebeu que não havia pesquisas sobre quem se arrependia de tê-los.

mulher-questionando1-202x300-336x499FILHOS CAUSAM ARREPENDIMENTO?

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Orna publicou recentemente um estudo sobre os relatos de mulheres que lamentam o dia em que decidiram ter filhos. “A noção mais difundida é a de que, se garantirmos que a mulher tenha todas as condições para ser mãe, então tudo estará bem. Mas não. Algumas mães que participaram do meu estudo tinham tudo – dinheiro, tempo, ajuda – e, ainda assim, se arrependeram”, disse ela em entrevista ao site da revista Veja.

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A sociedade deveria ouvir com mais atenção as mulheres que falam que não querem ser mães – e elas são cada vez em maior número. Não se pode tomar uma decisão séria dessas por imposição. Trata-se de uma escolha íntima e particular. Cada mulher conhece melhor do que ninguém seus sonhos, anseios, desejos e necessidades e o próprio corpo. Não há nada de feio em não querer ser mãe. Não há porque sentir vergonha em dizer “não quero ter filhos”. Feio é não ter esse direito amplamente respeitado.

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Orna usou dois critérios para a definição de arrependimento. Perguntou às pesquisadas: “Podendo voltar no tempo e com o conhecimento que têm hoje, escolheria se tornar mãe?”. A resposta foi “não”. Pesando vantagens e desvantagens da maternidade, as mães arrependidas diziam que os aspectos negativos superavam os positivos. Ou seja, mesmo reconhecendo bons momentos, elas sentiam que tinham cometido um erro.

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A maioria das mulheres não apontou como motivo do arrependimento eventuais prejuízos da maternidade para a carreira profissional – crença muito difundida. Trata-se de uma visão simplista e ultrapassada que esquece o fato de que existe uma variedade de identidades, desejos e necessidades nas mulheres muito além da “maternidade versus carreira”.

Confident businesswoman portraitNÃO É SÓ ISSO

Livro que tornou-se fenômeno editorial nos Estados Unidos e que acaba de ser lançado no Brasil aborda tema semelhante. Em “Solteirona: o direito de escolher a própria vida”, a escritora e jornalista Kate Bolick fala do desejo de não casar (ela e o namorado vivem em casas separadas) e de como esta tendência é cada vez mais forte entre as americanas.

KATEMUITO PRAZER, KATE BOLICK

Kate engorda as estatísticas de mulheres sem filhos. Diz ela: “A porcentagem de mulheres que realmente querem ter filhos é muito pequena. O mesmo com as mulheres que não querem ter. A maioria fica no meio. Muitas mulheres têm filhos coagidas, uma vez mais, pelos papéis e estereótipos que a sociedade impõe. É uma pressão real, que existe e provoca muito estresse – e também atinge os homens, porque o mundo está organizado em torno da família e do casal”.

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Assim conclui Orna, a pesquisadora de Tel-Aviv: “Não é exatamente o arrependimento de ter tido filhos que causa o sofrimento nessas mulheres, mas as reações da sociedade a esse sentimento”.

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