Mariana Kalil: Suspiro, logo existo

Foto: Pixabay, Divulgação
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Súbito, a professora interrompeu a aula. Eu escrevia a lição e também parei para ver o que havia acontecido. Corria o ano de 2004, eu cursava pós-graduação em Barcelona, na Espanha, aquelas eram minhas aulas preferidas e minha professora predileta.

— Algum problema, Mariana? – ela perguntou.

“Será que é comigo?”, pensei.

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Sempre odiei chamar atenção em sala de aula. Olhei para um lado, meu colega francês me encarava. Olhei para o outro, minha colega dinamarquesa arregalava os dois olhos azuis na minha direção. Levei um cutucão do espanhol ao meu lado.

– É contigo – ele avisou.

– Mariana, algum problema com a minha aula? – a professora insistiu.

– Problema? – me certifiquei. – Não, absolutamente…

– E esses suspiros a todo instante querem dizer o quê? – ela quis saber.

– Suspiros? – perguntei.

– Tu é louca ou o quê? – brincou o espanhol, me dando outro cutucão.

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HOJE ELA NOS DISPENSOU DA COLUNA

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VAI EXPLICAR NO FINAL

Sim, eu estava suspirando durante a aula inteira. Sim, provavelmente eu já andava suspirando por anos a fio (em casa, com entrevistados, na sala de aula, no trabalho, no cinema, em reuniões…) e nunca ninguém havia me chamado atenção. Sim, eu provocava desconforto em que estava na volta com meus suspiros. Sim, o suspiro sempre foi uma espécie de alívio físico e mental para mim. Sim, 12 anos depois eu continuo suspirando cada vez mais – e os incomodados não se incomodam mais tanto assim.

Dia desses, fui lembrada que suspirava pela minha mãe, à mesa do café da manhã.

– Meu Deus, Mariana, o que tanto te aflige? – ela largou a xícara, me analisando, inconformada.

– Quem está aflita? Eu? – perguntei.

– Tu não para de suspirar!

– Mãe, é apenas um suspiro…

Suspiros causam desconforto ao redor. Geralmente, são associados a sentimentos como tristeza, inconformidade, cansaço, fadiga, tédio. Pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, exploraram o contexto dos suspiros e a maneira como eles são percebidos pelo “suspirante” e por seus vizinhos. Quem está por perto relaciona o suspiro com humor negativo – desapontamento, frustração, derrota. Para os suspirantes, como eu, significa exatamente o oposto.

Eu suspiro porque sinto necessidade de buscar esta respiração mais profunda. Jamais suspiro quando estou entediada, mas geralmente quando coloco algum ponto final e viro a página, seja em um pensamento, em um texto, em uma ideia. Há um estudo realizado pela Universidade de Leuven, na Bélgica, que sugere exatamente isso: o suspiro como uma espécie de “reinício” físico e mental – e que tem um benefício prático.

Segundo os autores da pesquisa, passar muito tempo respirando da mesma forma, sem variações, diminui a eficiência da respiração. Ao suspirar, provocando uma mudança de  padrão, o suspirante “estica” os pulmões, o que traz uma sensação de alívio e, de fato, pode melhorar a respiração – da mesma forma que se alongar de vez em quando pode fazer bem aos músculos.

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AI, AI…

PS: Atendendo a pedidos, escrevi esta coluna sem a presença dos personagens que me fazem companhia. Como o meu ofício de colunista só existe porque há leitores, gostaria de ouvir o maior número de opiniões possíveis sobre suas preferências. Escrevam para mim (leitor@marianakalil.com.br) optando por uma das três alternativas:

A) Quero a coluna sempre com personagens
B) Quero a coluna sempre com texto corrido
C) Quero que a Mariana alterne. Às vezes, com personagens; às vezes, com texto corrido.

** Na próxima sexta-feira, 28, estarei em Bagé para um bate papo comemorativo aos 30 anos da loja Solaetela. Não me deixem só!

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