Mariana Kalil: Viagem com a mãe

Pexels, Divulgação
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Sentamos em uma das mesas da rua, minha mãe e eu. Era um restaurante japonês pequeninho, em Ipanema, no Rio. Almoçar um combinado de sushi e sashimi depois da praia havia sido sugestão dela.
– Desde quando tu gosta de peixe cru, mãe? – perguntei.
– Deus me livre comer peixe cru! – ela respondeu.
– E o que tu vai pedir?
– Tua irmã me ensinou. É um sushi com arroz na volta e camarão empanado dentro. Já comi várias vezes. É ótimo! Com uma cervejinha gelada então…

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NHAM NHAM!!

Fiquei ali, sentada de frente para minha mãe, observando-a ler a carta de cervejinhas geladas. “Estou precisando viajar mais com minha mãe”, pensei. “Estamos precisando de mais tempo de convivência, eu e ela”.


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OS ANOS PASSAM VOANDO

Leva um tempo até a gente perceber que por trás da figura de mãe existe também uma mulher, uma mulher como nós. Com gostos, desejos, anseios, vontades, expectativas, decepções. Não dizem que são nas viagens que a gente conhece profundamente a essência dos amores (novos e antigos) e dos amigos? Pois viagens também contribuem para aproximar mães e filhas no papel de duas mulheres adultas e companheiras.

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AMIGAS E IGUAIS

Mães têm dificuldade de enxergar que filhas crescem e tornam-se seres independentes, autossuficientes, com capacidade de tomar decisões próprias e nem sempre de acordo com o ponto de vista delas. Há mães que não conseguem desassociar o sucesso ou o insucesso de uma filha do seu valor enquanto mãe. Mães sentem culpa, muita culpa.

MULHER HEADACHECULPA, CULPA, CULPA

Há filhas que ainda colocam o dedo nesta ferida: presumem que os acontecimentos em suas vidas estão diretamente atribuídos à relação que mantêm com suas mães – incapazes de aceitar uma mãe como um ser humano comum e imperfeito.

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UMA PESSOA NORMAL

No Rio de Janeiro, naquela semana de setembro, mais do que descobrir que minha mãe curte um restaurante japonês, convivemos as duas com nossas imperfeições e fizemos mútuas descobertas – das profundas às mais comezinhas. Ela bebe pouca água; eu vivo com uma garrafa na mão. Ela critica a minha garrafa; eu critico a falta de água no organismo dela. Ela já planeja a Páscoa do ano que vem; eu ainda nem cheguei no próximo Natal. Ela não compreende a minha falta de planos; eu não entendo a ansiedade dela.

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É MUITO AMOR ENVOLVIDO

Ela pensa em voz alta; eu reflito em silêncio. Ela diz pra eu falar alguma coisa; eu suplico que ela cale a boca por cinco minutos. Ela prefere o sol do meio-dia; eu prefiro o ar-condicionado. Ela diz que estou branca feito um bicho da goiaba; eu respondo que ela está laranja feito um nacho de Doritos.

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BICHO DA GOIABA

chipsNACHOS DE DORITOS

Neste fim de semana, enquanto esta coluna estiver sendo lida, estaremos de novo as duas, em viagem. Que bom, né, mãe? Que bom que a vida nos concedeu este tempo de descobrir ainda a tempo o privilégio de passearmos juntas por aí e explorar como adultas esta delicada amizade — e o que existe de melhor em cada uma de nós.

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