Martha Medeiros: 24 horas sem carro

Deixei meu carro na oficina. Na manhã seguinte, um amigo inglês, David, chegou à cidade e me convidou para almoçar. Normalmente, eu o buscaria no hotel de carro, onde ele já estaria me aguardando em frente ao prédio, mas não foi assim dessa vez. Fui até o seu hotel de táxi. Desci. Entrei na recepção. E reparei que o tradicional balcão do check in mais parecia o de um boteco. O lobby era decorado com peças garimpadas em antiquários, privilegiando o design dos anos 50, mas com resultado bem contemporâneo. Mais cara de hostal do que de hotel de rede.

Desconhecia a existência desse lugar bacana.

David aparece. Onde ir? Sugeri almoçar no Multipalco, assim ele conheceria o Theatro São Pedro. Propus irmos a pé. O homem fuma e seu outro vício é o sol – um londrino, lembra? Fazia 31 graus e o céu estava limpo como minha consciência. Bora! E então caminhamos por ruas onde só costumo passar de carro sem prestar atenção em nada. Porém, naquele instante, eu estava dentro da cidade, pertencendo a ela. Como quando viajo.

Cruzamos por pessoas mateando (dei as explicações de praxe), comentamos sobre a beleza do viaduto da Borges e seu abandono, e chamou a atenção dele a quantidade de pequenas livrarias pelas quais passamos – jura? Nunca tinha reparado. Aproveitei para me gabar dos nossos índices de leitura se comparados com os do resto do país. Exagerei só um pouquinho – juro.

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Então cortamos caminho por dentro da Praça da Matriz com seus residentes sem-teto (quando havia feito isso? Acho que nunca) e antes de nos acomodarmos numa mesa do restaurante, David invadiu a concha acústica da área e declamou alguns versos de Shakespeare – um pequeno luxo de uma terça-feira qualquer. Depois de almoçarmos, procurei o querido João Antonio, braço direito da dona Eva Sopher, e ele nos abriu as portas do templo da cultura gaúcha, onde dei a sorte de ver a Marcia do Canto em pleno ensaio final do espetáculo que homenageou o Nico. Abraços, beijos, risadas.

Dali, voltamos para o hotel percorrendo outras ruas. Paramos numa farmácia e encontrei Adriana, que foi professora da minha filha no maternal, vinte anos atrás. Hoje ela trabalha com literatura na cidade do Porto, onde mora, e combinamos de armar um projeto juntas – de repente umas leituras dos meus textos por lá, em terra lusa. Mais um pouco, em frente ao Beneficência Portuguesa, cruzo com o Matico, um amigo perdido no túnel do tempo – ambos nascemos ali, naquele hospital em cuja calçada nos reencontramos. Abraços, beijos, risadas.

Fim dos nossos serviços. Me despedi do David e, embalada, continuei caminhando, caminhando, caminhando, até chegar à minha casa.

Ligaram da oficina avisando que meu carro está pronto e estou sem nenhuma vontade de ir buscá-lo.

 

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