Martha Medeiros: O amor bandido jamais será pai dos seus filhos

Ilustração: Fraga
Ilustração: Fraga

O tempo coloca tudo rapidinho no passado. Lembra a Bibi? Aquela lindona da Juliana Paes numa novela remota chamada A Força do Querer, que até dias atrás hipnotizava o país e que já entrou para o cemitério global? Pois ela evidenciou o amor bandido, esse que atrai meio mundo, que desperta fantasias, que é tema de música, cinema, literatura e que deixa homens e mulheres a ponto de bala – metaforicamente, claro. Amor bandido não precisa envolver disparos de metralhadora.

O que é um amor bandido? Well, começa pelo escolhido (ou escolhida, mas não me patrulhe por eu adotar o gênero masculino para descrever o indivíduo – vale para as perigosas, também).

Ele é o protótipo do safado, isso fica claro já no início da troca de mensagens – ninguém é tão sedutor numa segunda-feira. Mas pra ele não existe dia inútil, sempre é hora para um xaveco. Você me abala, você é sexy, você é um arraso. Ele não dirá que você é a nora que a mãe dele sonhou, ele é bandido, não um palerma.

Então, o bandido marca um encontro num boteco e aparece bem vestido e sem pistola no coldre, e você até pensa que a regeneração começou, mas não se iluda, ele tem munição de sobra: as dissimulações, os segredos, a parte trash de uma história que ele revelará parcialmente e com cenas censuradas. Você é apenas um capítulo da biografia dele, ok? Relaxe e não se ache.

O amor bandido pode não ter nada de criminoso. É apenas um amor vadio, um amor sem endereço fixo, um amor que faz perder o sono, um amor que requer exames de HIV, um amor cheio de nudes no WhatsApp, um amor onde haverá uma terceira pessoa sendo traída, um amor que telefona bem na hora em que você não pode atender, um amor que exige lingerie provocante, um amor que jamais passará um Natal com você, um amor que obriga você a mentir e que faz você usar um batom de uma cor que ninguém sabia que existia na cartela, de um vermelho extra picante. Gente, quem resiste?

O amor bandido jamais será pai dos seus filhos. Se for, será rebaixado a amor domesticado, e perderá a graça e o adjetivo. Amor bandido tem que ser estéril e pra sempre, sairá da sua vida em poucos meses, mas nunca da sua cabeça. 

Ele faz você usar uma jaqueta que você pensava em doar para uma periguete, faz você falar certos verbos que nem a Madonna se atreve, faz você parecer a menina da escola que seus pais proibiam de cumprimentar, faz você se sentir a mulher mais gostosa de toda a quadra da Mangueira. Um filho da mãe adorável que você odeia amar (ou ama odiar, fica a critério do freguês).

Amor bandido vem com olhar de lince, voz aveludada, corpo gingado, aventuras inventadas e tendo você como dona do altar. Ajoelhado a seus pés, ele reza e promete o impossível, e você, mais malandra que ele, finge que acredita e dá a ambos a extrema-unção: que morramos juntos nesta piração.

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