Martha Medeiros: “Mas alguém quer saber de bom senso? Cada um faz o que bem entende”

Ilustração: Gabriel Renner
Ilustração: Gabriel Renner

Acho que já comentei este episódio: muitos anos atrás, em 1993, assisti a um show da banda Living Colour num pequeno ginásio em Santiago do Chile. Quem conhece o grupo sabe que eles tocam um funk rock pesado. O som estava incrivelmente alto, e as pessoas fumavam no local. Foi quando vi, ao meu lado, uma moça com um bebê de colo. Que agonia. Um bebê naquele ambiente era tão adequado quanto um gorila num concurso de miss. Não me segurei: perguntei a ela se o bebê não estaria melhor em casa.

Ela respondeu que não tinha com quem deixá-lo. “Tinha, sim”, respondi. “Com você.” E dei uma piscadinha pra ela, pra parecer simpática. Ela me fulminou.

Sei que fui invasiva, mas na época eu tinha uma filha pequena e bateu mesmo um desespero: se meus tímpanos mal estavam aguentando (saí antes do bis), imagine o desconforto daquela criaturinha de poucos meses.

Os argumentos a favor da moça: só por que virou mãe não tem mais o direito de se divertir? O pai, pelo visto, não estava a postos, e babá é caro. É provável que não tivesse um parente ou uma amiga que a socorresse, e devia estar amamentando. Merece ser crucificada por causa disso?

Agora um episódio mais atual, envolvendo o ator Marco Caruso, que passou recentemente por uma situação desagradável. Ele estava encenando a peça “O Escândalo Philippe Dussaert” quando percebeu uma senhora na segunda fila amamentando seu filho de nove meses, uma criança que logo começou a fazer os ruídos naturais de todo bebê (regurgitar, resmungar etc). A plateia distraiu-se, o ator também, e por fim ele solicitou que ela se retirasse para que pudesse continuar o espetáculo.

A mulher saiu do teatro direto para as redes sociais, onde chamou o ator de preconceituoso, machista, ignorante, mal-educado, além de dizer que a peça era horrível (já assisti, é genial). Muitos defenderam o ator, outros deram razão à mulher, e não consigo entender mais nada. O que faz uma mãe levar um bebê a uma peça de teatro adulto, à noite? A administração do teatro deveria ter orientado a espectadora antes de o espetáculo começar, mas não o fez, e deu-se a confusão.

Mães têm o direito de amamentar no ônibus, numa sala de espera, no meio da rua. Elas precisam se deslocar até o trabalho, ir a consultas médicas e, ao mesmo tempo, manter seus bebês alimentados. Amamentação não é um ato erótico e pode acontecer em qualquer lugar, mas levar um lactente a um show de rock pesado ou a um monólogo teatral é, convenhamos, facultativo: a opção de ficar em casa tem que ser considerada. Pelo bem da própria criança e também por uma questão de bom senso.

Mas alguém quer saber de bom senso? Cada um faz o que bem entende e defende seus direitos aos berros, peitando quem ousar questioná-los. Ok, estando dentro da lei, podemos tudo, mas não custa se perguntar de vez em quando: poder, eu posso, mas devo?

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