Martha Medeiros: Câmbio manual

Ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada

No último livro que li em 2015, o personagem Pablo tomava as principais decisões da sua vida enquanto mudava as marchas do carro. Um detalhe, apenas um detalhe. A história do livro é outra e nada tem a ver com isso. Mas a competência do autor me fez enxergar nitidamente aquele Pablo que passava de primeira para segunda quando se animava com uma ideia delirante, e de segunda para terceira quando se sentia confiante de que aquele era mesmo o caminho que deveria seguir, e que voltava para a segunda marcha quando de repente uma dúvida reduzia seu entusiasmo.

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Uma vida, quando bem vivida e bem pensada, nos obriga a essas alterações de força do motor. Uma ideia puxa outra ideia, encontra a estrada livre em frente, acelera, aí surgem os obstáculos, freamos, nos adequamos à baixa velocidade novamente, até que uma fresta se abre, decidimos avançar por ela, e engatamos a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, sentindo o êxtase da conquista: o deslizar merecido depois de uma escolha que foi feita em um único segundo, administrando racionalização e audácia. Até que se chega a algum ponto morto, e tudo começa novamente.

Isso quando não somos forçados a dar ré. A gente se desencoraja, às vezes.

Eu, como muitos, dirijo um carro com câmbio automático e acho bem prático. Acomodo o câmbio no D de Drive e é só ir. Pouco esforço. O motor se adapta às circunstâncias, o carro decide qual a potência exigida, não precisa de mim.

Emoção nenhuma. Como um pensamento sem mudanças.

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Para que serve ler? Aproveitando a deixa, poderia responder que é para lembrar que usar a cabeça é um exercício estimulante, que terceirizar nossas escolhas é preguiça, que estar no comando exige responsabilidade, que é preciso saber quando avançar e quando recuar, enfim, essas coisas que fazem da troca de marchas uma bela metáfora pra vida, mas não: ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada.

O livro que citei na abertura dessa coluna, o último que li em 2015, foi o genial Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza. E entrei em 2016 lendo Trapo, também de Cristóvão Tezza. E oxalá Cristóvão Tezza continue comigo nessa longa jornada pela frente, me inspirando, entretendo, ensinando, divertindo, comovendo ou, se for o caso, não servindo pra nada. A não ser, talvez, para me fazer sentir a plenitude de engatar a primeira e assumir os riscos desta viagem – um ano que começa é sempre uma nova estrada que se pega, e quero avaliar eu mesma de quanta força vou precisar e de quais emoções não pretendo abrir mão.

Meu carro é automático. Eu, não.

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