Martha Medeiros: “Coisa” é a palavra mais poderosa da língua portuguesa

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

É a palavra mais poderosa da língua portuguesa: coisa. Cinco letras que, unidas, englobam significados variados e misteriosos. Dentro dela, a imensidão do intraduzível. Lembro a diretora Irene Brietzke, que dirigiu minha primeira peça, Trem-Bala, em Porto Alegre. É a elegância em pessoa, mas quem a conhecia há mais tempo me prevenia: alguns dias antes da estreia, ela terá a “coisa”, prepare-se. Minha imaginação orbitava. O que seria essa “coisa” que ela teria? Um ataque de estupidez, uma mudez insistente, um sumiço, uma alergia, um troço? Tudo isso. Eu é que quase tive uma coisa na véspera, mas no dia seguinte a peça estreou com sucesso. Desde então, respeito a coisa que dá nos outros.

Quando alguém diz que não irá desistir de seu objetivo porque há muita coisa em jogo, meu suor escorre pela testa e faz um desvio até chegar atrás do pescoço e alcançar a lombar. Está na cara que esse alguém será capaz de roubar, matar, arrancar os dentes do inimigo que se interpuser entre ele e essa coisa desconhecida e tão valiosa. Imagino que a tal coisa seja sinônimo de reputação, dinheiro, poder, sexo, enfim, aquela coisa toda.

Quando eu ainda era bem pequena, caí na asneira de dar conversa para um vizinho mais velho que eu – ele devia ter uns nove anos. Pois fui proibida de falar com ele porque seu pai era Fulano, notório sujeito que não era grande coisa. Eu, com imenso esforço, raciocinei: se o pai do meu amiguinho, um Garibaldo com quase dois metros de altura e uma barriga gigantesca, não era grande coisa, a nossa família de gente magra e miúda seria o quê? Fui descobrindo que essa coisa de julgar os outros não era para principiantes.

Na minha santa ingenuidade, desejava que as relações fossem mais claras, objetivas, sem tantos pontos nebulosos, mas a coisa não era bem assim, diziam, e aí me sentia ainda mais perdida, porque às vezes achava que sabia das coisas e sabia era nada, como até hoje não sei. Se não é bem assim a coisa, posso imaginar que ela seja muito pior, mais aterrorizante – uma coisa de outro mundo. Que, aliás, é coisa que nunca entendi também – que outro mundo é este onde as coisas são tão diferentes?

Se alguém tivesse tido a paciência de me explicar o que eu não entendia naquela época, já seria alguma coisa, mas as pessoas estavam sempre muito ocupadas e achavam que certos assuntos não eram coisa pra criança, então cresci pensando por minha conta, e devo ter pensado coisas fabulosas, pois, quando me atrevia a revelar meus pensamentos, achavam que aquilo não podia ser coisa minha, e sim de alguém que estava colocando coisa na minha cabeça.

Que palavra teria potência semelhante e seria tão absoluta para definir o inqualificável? Não encontro outra. Fala-se por aí que a coisa está feia, mas eu a considero até bonitinha diante de tantas outras palavras que não servem pra nada. Ao menos a coisa funciona.

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