Martha Medeiros: A cultura da humilhação

(Arte: Fernando Gonda)
(Arte: Fernando Gonda)

Já nem lembrava de Monica Lewinsky, que foi estagiária da Casa Branca e teve um rápido affair com o ex-presidente americano Bill Clinton em 1996. O fato foi explorado à exaustão, na época.

Pois Monica hoje tem 41 anos e fez uma palestra TED recentemente, disponível pelo YouTube. São 20 minutos em que ela conta as consequências daquele episódio comentado no mundo inteiro e faz alertas importantes sobre cyberbullying. Se você nesse instante pensou “imagina se vou perder 20 minutos ouvindo aquela desqualificada”, você é o público-alvo desse vídeo.

Você, eu e todos os que usam tecnologia precisamos refletir sobre o assunto. A internet possibilita inúmeros encontros, amplia ações sociais, estimula a criatividade, agiliza negócios e já não se pode viver sem ela, mas tem um lado obscuro, como todos sabem. Reclamamos dos agressivos da web, dos haters, mas até onde pode ir a crueldade alheia?

Em 2010, um estudante chamado Tyler Clementi foi flagrado por uma webcam tendo relações íntimas com outro rapaz em seu dormitório na universidade. As cenas foram parar na internet. Dias depois, Tyler se suicidou. Tinha 18 anos.

O serviço assistencial britânico Child Line, que atende crianças e adolescentes, revela um alarmante aumento no número de suicídios nos últimos anos, e as ridicularizações nas redes sociais têm a ver com esse incremento. O CVV (Centro de Valorização da Vida) também possui dados que apontam nessa direção. A insensibilidade geral tem produzido gargalhadas de um lado e tragédias de outro.

Humilhação pública virou produto de alto valor comercial. Basta que uma pessoa passe vergonha para que o flagrante mereça muitos cliques, e esses cliques valham muito dinheiro, sustentando sites de fofocas e transformando a nós todos em imbecis digitais. Não existe mais compaixão nem respeito pela intimidade alheia.

O que Monica Lewinsky tem a dizer sobre isso? Ouça-a. Estou aqui apenas resumindo a palestra dela a fim de atiçar você para assisti-la. Quando tinha 22 anos, ela se meteu numa encrenca federal (mesmo) e foi o que bastou para todos se sentirem no direito de acabar com sua reputação. Eu postei a palestra na minha fanpage e um dos comentários deixados foi: “Ah, é aquela, a sucker, tenho que ver isso, kkkk”. É uma reação automática. Podendo avacalhar, não perdemos a chance. Porém, o que antes era uma pegação de pé em meio a um círculo restrito, ganhou abrangência universal e exposição vitalícia.

Se a gente não quer que essa cultura da humilhação prevaleça, melhor começar a agir com mais responsabilidade agora, já. Até porque ninguém está livre de amanhã ser o alvo.

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