Martha Medeiros: “É um atrevimento nos outorgar o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem não”

Ilustração: Gabriel Renner, Agência RBS
Ilustração: Gabriel Renner, Agência RBS

Durante alguns anos, convivi com uma senhora que trabalhou a vida inteira numa casa de família. Praticamente criou os filhos dessa família, que depois cresceram e seguiram amparando-a. Era uma mulher de alma boa, mas com uma vida desértica. Não sabia ler nem escrever. Não sabia identificar os números. Falava um português sofrível. Nasceu e viveu no interior do Rio Grande do Sul. Conheceu Porto Alegre, mas na Capital não conseguia pegar um ônibus ou fazer compras sozinha. Não teve filhos. Não se tem notícia de algum namorado, é bem possível que nunca tenha amado um homem. Colecionava bonecas mesmo depois de adulta. Era de uma ingenuidade assombrosa. Assistia televisão, mas entendia muito pouco do que via. Era uma mulher inocente que desconhecia a maldade, o sarcasmo, as segundas intenções. Cozinhava bem, seu grande dom. Fora isso, ter seis ou 60 anos não fazia a menor diferença, a não ser no aspecto físico. Nunca deixou de ser uma criança.

Soube que ela faleceu esta semana. Eu não a via há muitos anos e, quando soube da notícia, senti a melancolia natural de quem passa a recordar de alguém que já não habita esse mundo. Que eu saiba, não aconteceu nada de genial na vida dela, nada de minimamente empolgante, e isto me soou como um desperdício. Que graça tem viver a repetição sistemática dos dias, qual o sentido de existir sem arte, sem conhecimento, sem paixão, sem questionamentos? Me perguntei se ela teria sido feliz.

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Imediatamente caí em mim: se bem a conhecia, ela nem sonhava com a possibilidade de haver outra opção que não a de ser feliz. Dava a impressão de que não reconhecia a existência de alternativas: ou isso ou aquilo. Só conhecia “isso”: a vida dela, do jeito que era, sem desejos ou frustrações. Agradar às pessoas ao redor parecia ser a única coisa que queria fazer. Talvez tenha sido carrancuda algumas vezes, ou egoísta, ou desaforada: certamente foi, não era uma planta, e sim um ser humano. Mas nenhuma dessas reações vinha acompanhada de alguma consciência filosófica, de algum embasamento teórico. Ela não conectava suas emoções aos porquês. Impossível uma criatura dessas não ser feliz – ou perceber que é infeliz. Simplesmente, ela não racionalizava sobre seu estado de espírito. Não tinha recursos intelectuais para tal. Assim como ela, quantas outras vivem dessa maneira? Um mundaréu de gente, todos ignorantes de si próprios, mas nem por isso insatisfeitos.

Certa vez escrevi uma crônica chamada Minha Felicidade Não É a Sua, inspirada em um livro de Carlos Moraes. Lembrei dessa crônica ao pensar nessa senhora. O que sabemos nós sobre aquele que parece radiante ou sobre aquele outro que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e seguiremos sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor. É um atrevimento nos outorgar o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem não.

Essa senhora que nunca leu, nunca viajou, nunca amou, nunca fez sexo, ou seja, que nunca experimentou os requintes e dissabores da vida adulta, parece ter desperdiçado sua vida. Mas estar no mundo apenas por estar, vá saber, pode ser uma forma sofisticadíssima de paz.

 

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