Martha Medeiros: A intérprete

Nas poucas vezes em que parei pra pensar na profissão de intérprete, me vinha a ideia de alguém fazendo uma tradução simultânea num seminário internacional ou acompanhando políticos em viagens oficiais. Um tédio. O intérprete seria aquele papagaio de pirata sentado ao lado dos protagonistas, mas sempre cortado das fotos.

Até que fiquei amiga de uma intérprete. E descobri funções de seu ofício que nunca haviam me ocorrido. O intérprete é mais do que um tradutor discreto da cena. Ele pode dar voz aos tormentos de uma pessoa desconhecida, e pra isso é preciso mais do que conhecimento do idioma. Exige uma sensibilidade rara.

Ela me contou um pouco da sua rotina, se é que existe rotina numa atividade que obriga a estar em diferentes locais a cada dia, testemunhando situações limite enfrentadas por estranhos que dependem de você para a compreensão do que estão vivendo.

Por exemplo, consultas médicas. Inúmeros imigrantes vivem em países estrangeiros com uma noção muito precária da língua do lugar em que escolheram morar. Pensam que falam inglês, que falam francês, que falam espanhol, mas apenas se defendem, até que surge uma situação específica: tratar uma doença, lidar com exames, passar por uma cirurgia. “The book is on the table” não vai adiantar pra muita coisa. É quando a intérprete entra em ação para unir as duas pontas de uma conversa difícil. De um lado, alguém ansiando por uma notícia boa, enquanto que o médico tem um diagnóstico terrível a dar. Minha amiga intérprete já esteve muitas vezes ali, naquele instante e local, traduzindo as palavras que fazem uma vida se modificar para sempre.

Tribunais, hospitais e delegacias são ambientes frios onde nos encontramos naturalmente indefesos e vulneráveis, imagine então sendo monoglota e vendo nosso futuro ser debatido por pessoas com quem não conseguimos nos comunicar. Minha amiga ameniza essa solidão torturante. Ela é convocada inclusive para sessões de terapia. E fala na primeira pessoa (se bobear, até chora), incorporando as confissões do seu cliente no divã, numa busca concentrada em fazer o terapeuta entender a dor de quem mal consegue expressar suas dores pra si mesmo.

Nessa hora o intérprete ganha a importância de um pai, de uma mãe, de um advogado amigo, do nosso médico de família, do padre da nossa paróquia. Alguém que nos compreende e que nos ajuda na difícil tarefa de nos relacionarmos com o mundo. É o personal dos sonhos, um dublê para os momentos em que nossa alma grita, só que ninguém escuta.

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