Martha Medeiros: Ir ao encontro é abertura, de encontro é colisão

Foto: Edu Oliveira
Foto: Edu Oliveira

Tenho uma quedinha pelos significados antagônicos das expressões “ao encontro de” e “de encontro ao”. Perceba a sutileza, até parece poesia: ao encontro de/de encontro ao. Arnaldo Antunes já terá se debruçado sobre isso? Adélia Prado? Antonio Cícero? Claro que não, eles não têm a obrigação de escrever um artigo edificante sobre o fim do ano. Mesmo que não pareça, é o que estou tentando fazer.
Uma pequena troca de posição (“de” no lugar de “ao”, e vice-versa) e temos um mundo novo, outro olhar, tudo se transforma.

Ir ao encontro é abertura. Ir ao encontro de um novo amor, ou de um ex-amor, de um amor para sempre. Alguém que você sabe que está esperando sua chegada, que irá jogar tudo para o alto ao ver você entrar pela porta, que lhe dará a certeza confortante de que está sendo aguardado e de que nada, nada impedirá o happy end desta história.

Ir ao encontro de um sonho que estava criando mofo na sua imaginação. De repente, o sonho se realiza e uma chuva de papel picado cai sobre sua cabeça e você nem percebe o quanto isso é cafona, de tão inatingível que tudo parecia, mas aconteceu.

Ir ao encontro de um desafio que irá justificar sua passagem por este planeta. Escalar o Aconcágua? Apoiar uma organização humanitária? Fazer um teste para atriz? Ir ao encontro do que você intuiu antes mesmo de planejar, ir ao encontro daquilo que você queria ser antes mesmo de entender a fundo o que é ser alguém.

Ir ao encontro da serenidade, da angústia zero. Permitir que as perguntas fiquem sem respostas e não sofrer nem um pouco por isso. Ir ao encontro das surpresas que redefinirão quem você é, mesmo que você pense que já sabe quem é (não, nunca se sabe com certeza). Ir ao encontro do pânico e do êxtase que às vezes (quase sempre) reúnem-se no mesmo acontecimento.

Ir ao seu próprio encontro, ao encontro daquela faceta secreta que você ainda não trouxe à tona por medo de se conectar com as partes ignoradas da sua identidade. Há muitos “eus” dentro deste você que você é, mas que ainda não se permitiu ser por inteiro. Ir ao encontro deles, de todos esses eus desconhecidos, é um abraço gigantesco em si mesmo.

Que 2018 seja um esplendoroso “ao encontro de”, e não um indesejado “de encontro ao”. Crash! “De encontro” é colisão. Bater de frente com a namorada, brigar com amigos por causa de política, ficar estremecido pela divergência de opiniões, mergulhar no estresse. Tivemos fartura dessas colisões em 2017, algumas necessárias, mas todas desgastantes. Ainda que 2018 seja um ano eleitoral (o que propiciará muitos “de encontro”), vale sonhar com um candidato que nos levará “ao encontro” de um ideal comum, de uma sensatez administrativa, de uma visão pluralista e de uma consciência social que beneficiará a todos. Estamos merecendo ir ao encontro desta utopia.

“De encontro” é conflito, choque, obstrução da caminhada. O que eu desejo para 2018? Que não seja atravancado por fake news, agressões, baixarias. Que seja leve e desimpedido. Que elegantemente flua.

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