Martha Medeiros: Keep calm e não vire um reaça

Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Aquele carrancudo que entrou e saiu do elevador sem dar bom-dia não tem nada contra você, o problema é que ele, além de não ter o hábito de ser cortês, descobriu ontem à noite que a mulher com quem casou há dois anos tem um amante.

O apressadinho que está buzinando de forma alucinada atrás do seu carro não tem nada contra você.
Além de ser naturalmente mal-educado, ele dormiu apenas três horas esta noite e não tomou café da manhã, o que não colaborou para melhorar seu precário humor.

A mulher que postou na sua página do Face uma ofensa despropositada porque discorda das suas ideias não está com raiva de você, ela nem entendeu direito o que você quis dizer, aliás, ela nem sabe quem você é. A coitada não se conforma de nunca ter passado num concurso público e esse frustração transformou a mulher num azedume ambulante.

O cara que furou a fila não está competindo com você, ele já perdeu pra si mesmo faz tempo. O chato que conta piadinhas machistas não está querendo provocar você, é que o infeliz não pega ninguém. O colega que questiona tudo que você faz não está querendo importunar você, óbvio que o sujeito tem baixa autoestima. Aquele olhar atravessado que a passageira do ônibus deu pra sua roupa não é uma crítica a você, ela é que não tem coragem de se expressar com mais criatividade.

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Somos todos inocentes das neuras, traumas, complexos e distúrbios alheios. Se a pessoa surta, se a pessoa faz estardalhaço, se a pessoa briga por qualquer coisa, não é contra você nem contra mim, a encrenca é com ela mesma. Taí uma fórmula precária, porém bem intencionada, de colaborar com a paz no mundo: não dê trela.

Mantenha a calma e reserve toda sua indignação para quem está realmente atrapalhando sua vida com total consciência disso. Política, sim, é sobre você, sobre mim, sobre nós todos, não tem atenuante. É com essa corja que temos que nos entender – ou nos desentender. Mas com inteligência. Não caia na conversa de qualquer oportunista que surgir com um discurso preconceituoso e radical, tipo um Trump tupiniquim, destes que prometem colocar ordem na casa, mas que não passam de ignorantes que só aprofundam o atraso da nação. Você não precisa decidir agora em quem votará para presidente em 2018. Cuide para não ser reacionário, porque a tentação é grande. O país está nervoso, e a tendência é confundir ditadura e conservadorismo com salvação. Não dê aval para este brutal retrocesso. Não acredite em mitos, em frases de efeito, em extremismos. Aguarde até saber quem serão os candidatos, qual o comprometimento de cada um deles, seu passado, seu currículo, suas propostas de desenvolvimento econômico e inclusão social, e aí sim, pense, pondere e dê o troco com sanidade – não com desespero.

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