Martha Medeiros: Minha campainha tocou no dia 26 e descobri que Papai Noel existia

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Era 3 de dezembro de 2016, um sábado. Pra variar, eu estava diante do computador, quando entrou mais um e-mail em minha caixa postal. Era assinado por uma brasileira que eu não conhecia. Seu nome era Shayla Bittencourt, uma mulher que, educadamente, pediu meu endereço, pois gostaria de me presentear com um livro. Não costumo fornecer meu endereço assim, à toa, mas ela vivia em Londres (só de ouvir o nome da cidade, me derreto) e livro é coisa que não recuso, então dei a informação solicitada e depois os dias passaram em silêncio, o que me fez esquecer o assunto.

No dia 26 de dezembro, a campainha do meu apartamento tocou e do outro lado da porta havia um grande pacote. Quando percebi que vinha da Inglaterra, lembrei: é o tal livro. Quem será o autor da obra? A remetente estaria divulgando algum novo talento britânico? Ou estaria me oferecendo algum clássico de Jane Austen, de Edgar Allan Poe? Errado para ambas as suposições. Jamais imaginei que a autora do livro fosse eu mesma. Shayla havia traduzido minhas crônicas para o inglês e me enviava as cópias com um estupendo laço de fita vermelha e uma verve diabólica.

Por isso gosto tanto da vida: pelos imprevistos. Faz alguns anos que eu e minha família decidimos não mais trocar presentes no Natal, já que temos tudo o que precisamos e nos basta estar juntos. Mas, claro, sempre havia um ou outro que descumpria o trato. Porém, o Natal de 2016 havia sido o primeiro em que eu não havia recebido nenhum, nenhum, nenhum presente. Até que minha campainha tocou no dia 26 e descobri que Papai Noel existia.

Foi assim que Shayla entrou na sala da minha casa: não pela chaminé, mas pela via do afeto e da gentileza. Meus livros já foram traduzidos para o francês, o italiano e o espanhol, mas nunca para o inglês. Pois Shayla não só me traduziu, como conseguiu fechar contrato com uma editora independente, com sede em Londres e filiais em Nova York e Sidney, e, pra encurtar a história, o livro será lançado em 2018, mas isso nem é o presente maior.

O presente, de fato, é a própria Shayla, intérprete por profissão e dançarina de tango nas horas livres, a quem conheci pessoalmente, meses atrás, e descobri afinidades extraordinárias, do tipo que faz a gente se perguntar se não houve uma separação ainda no berço. Ela, catarinense; eu, gaúcha – pra quem não sabe, isso já configura um parentesco.

Mais do que a oportunidade de ter meu trabalho disponível nas livrarias espalhadas pela Charing Cross Road (não se impressione, edições estrangeiras dão charme aos nossos currículos, mas, na prática, não mudam a vida de ninguém, as vendas são pra lá de modestas – Paulo Coelho não confirmaria isso, claro), o que ganhei mesmo foi uma amiga secreta, uma amiga oculta, que se revelou de forma inesperada e com quem hoje troco longos e divertidos áudios pelo WhatsApp, além de fazer novos planos profissionais.

Presente é isso. A vida que a gente reza pra ter, mas que independe de orações – basta abrir a porta pra ela, sem medo.

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