Martha Medeiros: Minha encrenca querida

Chegou em boa hora o novo livro de Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui, em que ele relata como sua família vivenciou o sequestro, a tortura e o assassinato do seu pai, Rubens Paiva, em 1971 é minha sugestão de leitura para os irresponsáveis que saem pelas ruas com cartazes pedindo a volta da ditadura. Mas o personagem principal do livro é Eunice Paiva, mãe de Marcelo, que hoje está com 83 anos e sofre de Alzheimer.

Afora o registro histórico de um período vergonhoso do país, o livro mostra como a doença da viúva de Rubens Paiva se desenvolveu e como os filhos convivem hoje com essa mãe que outrora foi tão atuante e que agora está “ausente” – quer dizer, ausente mais ou menos, pois o título Ainda Estou Aqui se refere aos poucos lampejos de consciência que ela ainda mantém.

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Fugindo um pouco do drama particular da família, a certa altura do livro Marcelo narra um episódio interessante. Durante um workshop de um grupo de apoio com doenças variadas, foi sugerido aos participantes que escrevessem o nome da sua doença num papel e o colocasse sobre a mesa. Depois, cada um escolheria outra doença. Surpresa. Ninguém trocou de doença. Ninguém preferiu uma doença que substituísse a sua. Preferiram ficar com a que eles já conheciam.

É sobre esse apego que escrevo hoje. Temos tanta necessidade de nos autoafirmar que até aquilo que nos dói merece nosso afeto e cuidado. É claro que ninguém quer ficar doente, nem sofrer de amor, nem viver em solidão, mas são coisas que acontecem e que acabam fazendo parte do nosso histórico. Curioso é o quanto passamos a depender desse histórico, mesmo negativo, para nos reconhecermos.

Muitas pessoas vivem alardeando que tudo dá errado para elas, que são os azarões de todas as apostas, que vieram ao mundo para sofrer, mas será? Elas devem, claro, ter passado por alguns perrengues na vida, mas por que transformam isso em marca registrada? Será que não é preguiça de construir outra identidade?

O mesmo se dá com os campeões da dor de cotovelo, aqueles que ainda sofrem por antigos amores em vez de fazerem a fila andar. É provável que temam sofrer de novo por alguma paixão não correspondida. Preferem manter a velha dor de estimação. Já se habituaram a ela.

Você trocaria de defeitos? Trocaria sua avareza por esbanjamento descontrolado? Sua ansiedade por lentidão? Ora, já estamos acostumados com a reputação que criamos. Doença é assunto mais delicado, mas ocorre o mesmo: abre-se mão dela pela saúde plena, claro, mas se for para trocar por outra, fica-se com aquela que a gente já sabe lidar.

Sempre ouvi dizer que o ser humano não muda, e sempre achei cruel esse ceticismo. Mas entendo por que não mudamos: a gente aprende a amar até o que é ruim em nós.

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