Martha Medeiros: “Não conhecemos todas as versões da nossa própria história, apenas a escrita pelos brancos”

Ilustração: Fraga
Ilustração: Fraga

“Não sou racista”, dizem todos, mas alguém assumiria? Não temos amigos negros porque não tivemos colegas negros na escola particular em que estudamos, e é só por isto que eles não fazem parte do nosso convívio, a não ser como empregados. Não somos racistas, o distanciamento deve-se apenas à desigualdade social. Será mesmo?

Ainda consideramos que ser branco é normal e que ser negro é outra coisa. Ainda pensamos na África como um lugar exótico que produz bons vinhos, que é ótimo destino para fazer safáris cinco estrelas e cujo artesanato é perfeito para decorar nossas paredes e estantes. Não estudamos nossa ancestralidade e não conhecemos todas as versões da nossa própria história, apenas a escrita pelos brancos, que ignoram a cultura africana difundida de forma oral. Nossos olhos se voltam para a Europa como se lá estivesse toda a nossa origem.

Temos falado muito em empoderamento da mulher, um processo que tem conquistado vitórias importantes, mas, para sermos uma sociedade moderna, igualitária e justa precisamos estar atentos também à questão dos negros (questão, aliás, que não é só deles, e sim de todos). Nossa cabeça tem que mudar. É fundamental trocar experiências e acabar de vez com estereótipos e preconceitos. Nunca foi tão necessário um humanismo expandido, agregador, pacífico – único antídoto contra a crise generalizada em que vivemos.

Convivo com pouquíssimos negros, mas tenho o privilégio de ser amiga da escritora e atriz Elisa Lucinda, uma mulher lúcida, engajada. Através dela, aprendo sobre valores, tradições, orgulho racial. Outro artista a quem devemos escutar é o ator Lázaro Ramos, que acaba de lançar um livro chamado Na Minha Pele, em que faz um relato sensível sobre a realidade do negro no Brasil, chamando nossa atenção para atitudes vexaminosas que nem percebemos. Um exemplo banal: incontáveis vezes ele foi cumprimentado pela sua atuação em Cidade de Deus, mesmo não tendo participado do filme.

Simplesmente é automática a associação entre negro e violência. Lázaro também salienta manchetes de jornal que lemos todos os dias, sem perceber a sutil troca de uma palavra: “Traficante preso com 30 quilos de cocaína” e “Estudante preso com 30 quilos de cocaína”. Adivinhe a razão de um ser qualificado como traficante e o outro não.

Estas percepções equivocadas demonstram o tamanho do nosso atraso e impedem o país de crescer – não é só a política que nos afunda, mas toda uma mentalidade ainda escravagista que nos prende a um modelo antigo de nação. Como começar a evoluir? O caminho é longo, mas fica a sugestão de leitura do livro de Lázaro Ramos para começar a perder o medo de enxergar o que há por baixo da pele de todos nós.

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