Martha Medeiros: O dia em que sonhei ser vilã

Recebi o e-mail de uma moça (que não conheço) avisando que um jornalista (que também não conheço) andou me citando num texto. A moça, além de me transcrever o texto dele, mandou junto o e-mail do sujeito para que eu o agradecesse.

Li o texto. Ele elogia o bairro em que moramos e, no final, celebra a possibilidade de me ver caminhando pelas ruas. Sujeito simpático.

O que uma vilã faria? Nada muito maquiavélico. Simplesmente tocaria a vida. Anda atarefada, não conhece nem a moça nem o jornalista e há outros assuntos pendentes. Mas não sou vilã. Sinto obrigação de dar retorno, então mando um e-mail pra moça agradecendo o contato e outro e-mail para o cara agradecendo a citação. Feito. Levou cinco minutos para ser educada.

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Passa uma hora e a moça volta a escrever dizendo que avisou o jornalista de que eu havia respondido pra ela, porém ele disse que não havia recebido nada. Ué. Respondo pra ela que vou reenviar o e-mail pra ele, e reenvio.

Daqui a pouco entra um e-mail dele agradecendo meu agradecimento. Ótimo. Acho que agora posso continuar a trabalhar.

Em 15 minutos, ele escreve de novo pedindo meu endereço pra mandar um livro de sua autoria. Recebo cerca de cinco livros por semana e o dele entrará para o depósito onde guardo tudo que levarei para minha cela quando pegar uma prisão perpétua, mas mando o endereço.

Mais um pouquinho, ele escreve de novo dizendo que soube que a editora dele já havia me mandado o livro, não recebi?

Seria a hora de dar minha paciência por encerrada e me transformar, finalmente, numa vilã bem pérfida, mas não consigo e esconjuro meus pais pela maldita criação que me deram. Levanto, vou dar uma olhada nos milhares de livros empilhados pela casa, levo um século fazendo a busca e encontro o exemplar. “Sim, de fato, seu livro está comigo. Obrigada, um abraço”.

Já é noite, nem tinha reparado.

Na manhã seguinte, abro minha caixa de e-mails e há uma mensagem do rapaz pedindo opinião sobre um conto dele. Devo ler? Sou cria de Madre Tereza. Leio. E não gosto.

Aí faço um teatrinho, que é o mais perto que consigo chegar da vilania. “Olha, ando sobrecarregada, tenho vários textos para entregar, minha filha foi expulsa do colégio, minha mãe foi hospitalizada, meu cão está deprimido, a empregada fugiu com o porteiro, você entende, não é?”. Significa que não me manifestarei nem nesta, nem na próxima encarnação.

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Ele responde dizendo que entende e que aguardará ansioso pela minha opinião, ou seja, em breve receberei outro e-mail dele, cobrando a leitura.

E assim a gente constrói uma carreira de boazinha, mesmo sabendo que as vilãs é que são espertas. Toda essa trabalheira porque um cara que não conheço me vê caminhando de vez em quando pelas ruas.

Acabo de voltar do mercado da esquina. Adivinha.

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