Martha Medeiros: O fusca amarelo

Ilustração: Fraga
Ilustração: Fraga

Não faço a mínima ideia aonde essa crônica chegará, mas a arrancada se deu por causa de um fusca amarelo. Foi no estacionamento subterrâneo de um clube que o vi pela primeira vez, com os quatro pneus vazios e a carcaça começando a apodrecer. Foi deixado em uma vaga, como ficam os automóveis que nos levam a uma aula de natação, a uma partida de tênis, a uma sessão de academia, certos de que logo terão seus motores acionados e que reconduzirão seus donos aos seus lares. Mas não foi esse o destino do fusca amarelo. Ele foi estacionado e abandonado como um cão numa estrada em véspera de
feriado. Jogado fora como se não tivesse em seu currículo vários anos de serviços prestados, como se não tivesse testemunhado idas à igreja, não tivesse buscado filhos em escolas, não tivesse levado a família
para a praia, não tivesse engolido fitas k-7, não tivesse ocultado amassos, não tivesse feito seu dono chegar pontualmente ao trabalho.

Um carro pode ser considerado lataria, ferro-velho, mas um dia ele foi o sonho dourado de alguém. Posso imaginar o Renato, o Luiz, o Carlos – ou a Suélen, a Elvira, a Carmem – paquerando o fusca amarelo na concessionária ou cobiçando-o num quadradinho dos classificados, juntando os trocados para a primeira prestação, e então, numa abençoada manhã, levando-o para casa, buzinando rente à calçada, bi, bi, fon, fon, o novo integrante do clã dos Santos, dos Silva, dos Cardoso, dos Pereira, dos Assunção. Que nome e sobrenome constavam no documento que confirmava sua aquisição? Quem era seu dono, afinal?

Terá ele estacionado o fusca e então morrido afogado na piscina do clube, e o corpo nunca encontrado? Terá estacionado o fusca e depois saído para comer num restaurante do bairro e morrido de congestão ou envenenado? Terá estacionado o fusca e voltado a pé para casa, primeiro indício de um Alzheimer ainda não diagnosticado? Terá estacionado o fusca e roubado o Jaguar que estava dando mole na vaga ao lado? Terá estacionado o fusca e deixado impressões digitais que para a cadeia o teriam levado? Quem resiste a imaginar uma história que seja secreta e deliciosamente mal contada?

Vai ver o dono do fusca amarelo ou sua proprietária tenha acumulado carnês a pagar e acreditou que alienar o produto saldaria o débito automaticamente – ah, os inocentes, sempre encalacrados.

Em que data o fusca entrou no estacionamento coberto e nunca mais saiu, quanto haverá de dívida acumulada nessas centenas de diárias não cobradas, onde diabos se meteu o motorista que se irritou bestamente por uma bateria que morreu e não foi trocada?

Ou, vai ver, foi nada disso. Ainda assim, presto minha reverência a este mistério que me deu carona até chegar aqui, na última linha, sua última corrida.

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