Martha Medeiros: O que fazer da vida

Não tinha nem 10 anos de idade e era invadida por uma excitação boa a cada vez que alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse. Yeah! Estava confirmado que eu iria mesmo crescer, não era apenas uma hipótese fantasiosa. Eu então respondia: quero ser aeromoça! Se me acusassem de estar com a cabeça nas nuvens, eu aterrissava: então quero ser chacrete! Não importava se o desejo se cumpriria, eu simplesmente idealizava um futuro associado a coisas de que eu gostava, logo, me imaginava cantora, guitarrista (passava os dias ouvindo Suzi Quatro), balconista de supermercado (nas brincadeiras, sempre escolhia atender no caixa), tenista (o esporte da família), psicóloga.

Mentira, eu nem sabia o que fazia uma psicóloga. Só tinha certeza de que jamais seria médica de nenê. Queria me livrar do universo infantil e entrar logo no mundo adulto, que me parecia muito mais divertido.

Até o dia que tive que encarar o vestibular sem ter a mínima ideia de qual curso escolher. Acabei optando pela Publicidade porque uma amiga iria fazer também. Já que eu gostava muito de arte, de criatividade, de escrever, quem sabe não dava pé? Deu. E ninguém mais perguntou o que eu queria ser quando crescesse porque, afinal, eu havia crescido. E crescia junto a minha angústia, pois agora a pergunta era diferente: o que você vai fazer da sua vida?

Esta é uma questão que não abre os portais da imaginação, não induz ao sonho, ao contrário, procura nos enquadrar em algo que ofereça um firme suporte existencial. “O que você vai fazer da sua vida?” é, antes de uma pergunta, um julgamento sumário, uma crítica: o que você vai fazer da sua vida além de ficar perambulando pelas noites de sábado, além de programar feriados em Garopaba, além de namorar, além de fazer estágio não remunerado, além de juntar dólares para viajar, além de passar as tardes trancafiada no quarto ouvindo música, além de ficar com a cara enterrada em livros de poesia? Nada disso significava fazer alguma coisa da vida, ao menos não da vida que os outros esperavam que você tivesse, e você também esperaria, se soubesse lidar com assunto tão complexo. Não sabendo, tocou em frente, porque quem aguarda uma resposta absoluta não faz nada.

Então você trabalhou, casou, teve filhos, trabalhou, separou, casou de novo, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou, envelheceu, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou e o final ainda está em aberto.

O que você faz da sua vida? A mesma coisa que todos, provavelmente. Ocupa o tempo enquanto ainda se diverte sonhando com o que quer ser quando crescer.

Outras colunas de Martha Medeiros:
:: Um meio louco e outro também
:: Tocar a felicidade com os dedos

 

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