Martha Medeiros: O universo familiar foi perdendo o formato de tribo e resumindo-se a uns gatos pingados

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Recentemente, dois espetáculos levaram pais e filhos para o mesmo palco. Começando por Caetano Veloso, que tem se apresentado pelo Brasil com os seus garotos – Moreno, Zeca e Tom – num belo show que não tive a sorte de ver ao vivo, só através de pequenos vídeos postados nas redes sociais. Mas a Casa Ramil eu assisti.

Vitor Ramil e seus irmãos Kleiton e Kledir se apresentam numa espécie de roda de samba (mas que comporta milongas e outros gêneros) com seus filhos Ian e João e os sobrinhos Thiago e Gutcha – os sete como se estivessem na sala da casa do Laranjal, em Pelotas, onde nasceram e se criaram. Trocam conversa fiada em frente à plateia e tocam, afinados, canções de todas as épocas: desde Almôndegas até as composições dos mais jovens do clã. Experiência e experimentalismo juntos. Comovente.

Minhas avós, nos anos 30, não trabalhavam fora, não tinham acesso à pílula anticoncepcional, não tinham escolha a não ser fundar uma família pra cuidar: tiveram quatro filhos cada uma. Ou seja, tanto meu pai quanto minha mãe tiveram três irmãos e uma vivência rica em temperamentos a conciliar. Então, um dia eles se conheceram, casaram em 1960 e tiveram apenas dois filhos, que quando adultos também tiveram dois, cada um. A maioria das minhas amigas, idem, tem dois filhos. Algumas, apenas um; outras, nenhum. As pessoas passaram a ter mais o que fazer, e assim o universo familiar foi perdendo o formato de tribo e resumindo-se a uns gatos pingados.
Então, o que se vê no palco da Casa Ramil, além de um esbanjamento de talento musical, é o resgate de algo que não existe mais: o muito. Muitas histórias de vida abrindo-se para a renovação, muito passado em comum e muito futuro particular, muitas diferenças e semelhanças sendo administradas para o bem de uma convivência que nunca é fácil, muitas mulheres e muitos homens, muitos sobrinhos e netos, muitos cabelos, muitos estilos, muito ensinamento de pai pra filho e muito questionamento de filho pra pai, muitos sobrenomes iguais, muitos agregados somados à família nuclear, muito afeto segurando os desentendimentos, muita gente trabalhando pra coisa não desandar, muitos instrumentos pra cada um se manifestar, muitos endereços com uma mesma casa da infância pra lembrar, sinas diversas regidas pelo mesmo DNA. A potência da quantidade, do grupo, da massa. Muitos compondo um todo poderoso – deus virando parente, no meio deles, sem se fazer notar.

Casa Ramil é uma missa. É um banquete. É um réquiem que homenageia os familiões que estão desaparecendo e dando lugar às familinhas enxugadas por orçamentos curtos e lares apertados.
Casa Ramil é concentração antes do jogo. E é também o jogo jogado. E, por fim, é a celebração da vitória – eles vencem de 7 x 1. Nosso gol de honra é poder assistir a esse olé tão de perto.

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Dia 5, quinta, às 19h, na Saraiva do Moinhos Shopping, estarei lançando meu novo livro de crônicas, Quem Diria que Viver Ia Dar Nisso. Minha família é pequena, então conto com vocês 😉

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