Martha Medeiros: “Olha o que fui obrigada a fazer para me defender – entrei em miseráveis detalhes”

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

E agora? Teve gente que leu minha coluna “As minúcias”, de três domingos atrás, e me acusou de estar defendendo a extinção do bate-papo. Logo eu, boa conversadeira que sou. Talvez eu tenha sido muito resumida nos exemplos que dei (já que não queria chatear ninguém). Tentarei esmiuçar, então, pra ficar mais claro.

Imagine que você está numa festa e cruza no corredor, a caminho do banheiro, com uma conhecida. Cumprimentam-se, simpaticamente. E como você ouviu dizer que ela é louca pelo único neto, de três anos, pergunta:
“E o Murilinho?”.
Você não poderia adivinhar.
“O Murilinho está cada dia mais fofo.” Você sorri e já ensaia um “Que ótimo. Adorei te ver, aproveite a noite”, mas ela continua. “Só que caiu do escorregador na pracinha do maternal”. Você: “Puxa, que pena, se machucou?”. Ela: “Calma. Vou te contar tudo”.
Essa é a situação. Ela vai contar TUDO no meio de um corredor de uma casa em festa.
“Ele estava subindo a escadinha e havia mais dois colegas maiorzinhos atrás dele, esperando. Um inclusive é neto daquele advogado que defendeu sua prima no caso do desfalque do marido dela, sabe quem, né?”
“Sei, sei.”
“O Murilinho é pequeno, não tinha como subir correndo, mas os coleguinhas foram uns malvados, ficaram apressando o coitadinho.”
“Criança é foda”. Droga, escapou.
“O Murilinho ficou nervoso, naturalmente. Os meninos eram maiores que ele, já falei, né? E a professora não percebeu a situação. Inclusive a minha filha, mãe do Murilinho, está pensando em entrar com uma ação contra a escolinha.”
“Foi sério assim?”
“Calma.”
Começou a tocar Maroon 5, e a festa inteira foi pra pista, mas você está monopolizada no corredor que leva ao banheiro, o Murilinho ainda está no terceiro degrau da escada e você começa a se dar conta de como é irritante o uso exagerado de diminutivos.
“Quando o Murilinho chegou lá em cima do escorregador, um dos meninos, não o filho do advogado da sua prima, o outro, que é enteado de uma uruguaia, subiu também e deu uma empurradinha nas costas do meu neto.”
“Ufa, desceu o Murilinho!”
“Não, ele travou e começou a chorar. A chorar muito. Ainda bem que eu não estava lá pra ver a cena. Aí veio a tonta da professora ou da cuidadora do pátio, não sei bem, e tentou tirar ele lá de cima, mas ele estava tão assustadinho…” Você está quase fazendo xixi nas calças. “…que ele se jogou em cima dela e os dois se desequilibraram e caíram no chão. Ele ralou o joelhinho. Pracinha tinha que ter grama e não cascalho, você não acha?”

Era a isso que eu me referia. Minúcias. Numa festa. Entre duas criaturas que mal se conhecem. Sobre um assunto terrivelmente banal. Olha o que fui obrigada a fazer para me defender: entrei em miseráveis detalhes. Mas o que importa é que Murilinho passa bem e podemos trocar de assunto. Ou ir dançar.

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