Martha Medeiros: Oposição contra si mesmo

Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

A estupidez humana não cessa de bater seu próprio recorde. Como se sabe, gays são proibidos de doar sangue por um período de até 12 meses após terem tido relação com um parceiro do mesmo sexo. O Ministério da Saúde continua classificando os homossexuais como grupo de risco, sem considerar que muitos deles estão numa relação estável e fazem uso de preservativos.

Grupo de risco somos todos. Uma mulher que tem parceiros eventuais sem exigir camisinha é o quê? Héteros que transam com ela e com outras sem proteção, são o quê? Respondo: são doadores bem-vindos, ou seja, a restrição aos gays é discriminatória. Orientação sexual, por si só, não determina a qualidade do sangue. Foi para acabar com esse atraso que o deputado federal Jean Wyllys criou um projeto de lei, e aí reside meu desalento: por Jean Wyllys ser de esquerda, quem é de direita reluta em apoiá-lo. “O que vier dele, eu rejeito.”

É o mesmo raciocínio de quem não assistiu ao estupendo Aquarius por achar que é filme de petista (!!!). A posição política de alguns integrantes da equipe, manifestada na pré-estreia em Cannes, foi vista como um desaforo e gerou um revide provinciano: “Ou você pensa como eu, ou tudo o que você faz não presta”. O mesmo vale para quem deixou de admirar Chico Buarque. “Se não houver afinidade partidária, não te escuto, não te vejo, não te leio.”

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Por outro lado, vi muitos esquerdistas comemorando o fato de Eduardo Cunha ter levado uma sapatada de uma senhora no aeroporto Santos Dumont. “Esta me representa!” foi a frase repetida nas redes, ditas pelas mesmas pessoas que, no ano passado, ficaram indignadas por Guido Mantega ter sido hostilizado num restaurante em São Paulo – exemplo clássico de dois pesos, duas medidas. Quem não gostaria de dar uma sapatada numa criatura abjeta? Mas é para evitar que liberemos nossos impulsos ao bel-prazer, causando linchamentos físicos e morais, que existe um troço chamado lei. Quando ela vale só para alguns casos (os que nos interessam), temos um problema, Houston.

O conceito de esquerda e direita parecia superado, mas voltou forte e ainda mais dividido nestes tempos tecnológicos, em que o contato direto e instantâneo entre as partes acirra a disputa pela razão. O resultado é a rivalidade destemperada entre “Nós x Vocês”, sendo que ninguém leva em conta que “Vocês” podem ter boas ideias a despeito de não jogarem no nosso time.

Ser contra avanços legais e contra a arte, só por represália, é ser contra si próprio, uma oposição tola que dá em nada.

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