Martha Medeiros: Os dois minutos que residem para sempre naquele ontem à noite

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Então entramos juntos no bar e viste tua ex-namorada na mesa ao lado da porta, acompanhada de uma amiga, o que me deixou insegura. Então a garçonete anotou nossos pedidos, um cálice de vinho pra mim e água sem gás pra ti, porque estavas dirigindo, e fiquei feliz de não precisares de um trago naquele momento tenso. Então uma jovem artista foi para um canto, onde havia um minipalco, e ali começou a cantar lindamente as canções mais românticas de Chico, Vinicius, Tom, e eu fiquei enciumada de teus pensamentos, imaginando que cada letra trazia uma lembrança do que você e sua ex, ambos dentro daquele mesmo bar, teriam vivido juntos. Então eu pedi o segundo cálice e fiquei mais calada do que o habitual e você pousou seu braço sobre meu ombro. Então, com a mão, você delicadamente virou meu rosto a fim de que ele ficasse de frente para o seu. E com esta mesma mão você separou uma mecha de cabelo que caía sobre os meus olhos, e nos encaramos demoradamente como se estivéssemos apenas nós dois naquele ambiente escuro, e foram estes dois minutos de ontem à noite que eu trouxe de volta pra casa e que me ajudaram a dormir em paz com a cabeça sobre o teu peito e com a minha perna entre as suas.

Então levantei antes de você no domingo de manhã, enquanto seu corpo nu permanecia de bruços sobre a minha cama. Então passei pelo seu celular que estava sobre a mesa do quarto e percebi que havia várias mensagens não lidas no seu WhatsApp. Então peguei água na cozinha e, de pés descalços, com o copo na mão, fui até o jardim, pisei sobre a grama úmida e olhei para o céu. Então recuei, sentei num banco da varanda e chorei enquanto lembrava todos os momentos em que não confiei no que estava vivendo e lamentei minha insistência em ser uma mulher premeditada, que antecipa o fim trágico de um amor recém-iniciado como forma de evitar ser surpreendida pela dor. Então esse pensamento foi interrompido pelas suas mãos quentes nas minhas costas e eu voltei para o quarto com você.

Então a semana começou e vieram todos os outros dias do ano. Então eu estive alternadamente com você e sem você em compromissos repetitivos, situações cotidianas, deslocamentos pela cidade, checagens de extratos, preocupações mundanas de quem tem uma existência bem administrada. Então você era aquele homem que eu via nos intervalos das minhas atribuições, aquele que interrompia o ritmo alucinante da minha trajetória executiva, aquele que me telefonava no meio da tarde para dizer qualquer bobagem a fim de escutar minha voz. A dor nunca veio. O fim nunca chegou. Pela primeira vez eu vivia a continuidade de um desejo tranquilo e eterno, que soube acalmar as palpitações endiabradas do meu cérebro, bastando para isso dois minutos, não mais que dois minutos de um olhar, de uma mão afastando a mecha do cabelo sobre o meu rosto, dois minutos de um beijo prolongado, os dois minutos que residem para sempre naquele ontem à noite.

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