Martha Medeiros: Pedro o é

Tenho uma amiga escritora que mora em São Paulo e vive brigando com seus revisores – não estou falando de corretores automáticos de aplicativos, esses demônios que puxam nosso tapete. Estou falando de profissionais competentes, todos dispostos a ajudar, mesmo quando atrapalham.

Escritores geralmente têm uma relação de amor e ódio com seu revisor. O amor, naturalmente, vem das inúmeras vezes em que o dito cujo nos livra do vexame de escrever uma palavra errada ou fazer uma concordância absurda. O revisor salva a nossa pele.

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O ódio fica por conta da desobediência natural que certos estilos de escrita impõem: quase sempre, nosso erro é proposital. Faz parte do coloquialismo inerente ao gênero literário a que nos dedicamos. Crônica, por exemplo, parece uma conversa de bar, em que se tolera que frases comecem com pronome: “Me deram um chá de banco” em vez do correto “Deram-me um chá de banco”. Ou quando criamos um personagem fictício que não prima pelo português castiço – ninguém espera que um traficante use as mesóclises que encantam o Temer. Aliás, ninguém espera isso nem de um professor.

Essa minha amiga já passou por alguns perrengues. Uma revisora, certa vez, corrigiu todos os diálogos de um livro seu – todos! A personagem principal era uma adolescente que atendia num bar moderninho da Vila Mariana, mas a revisora implicou com alguns maneirismos de linguagem e colocou a moça falando como se fosse uma assistente social coletando donativos para a igreja. Não bastasse isso, a revisora corrigiu inclusive os horários que a moça saía do trabalho. Não gostava da ideia de ela deixar o bar depois da meia-noite – além de não pegar bem para uma menina tão nova, o metrô já estaria fechado, como ela voltaria para casa? Parece piada, mas até o horário do expediente da personagem a revisora tentou alterar. Minha amiga passou dois dias corrigindo a revisão da revisora a fim de manter tudo como estava no original, e depois de um stress que quase a fez desistir do lançamento, o livro acabou saindo como ela queria. A propósito: a personagem não pegava o metrô porque ia dormir ali perto, no cafofo de um bebum. Uma indecência que a revisora teve que engolir.

O revisor é nosso Deus e nosso Diabo. Graças a ele, escapamos de gafes, mas também pagamos micos. É uma relação bipolar, repleta de “muito obrigada pela correção, não percebi meu vacilo ao escrever assento da aeronave com c!”, mas também de “não acredito que você trocou a frase Pedro é por Pedro o é”. Pedro o é!!!

Como reclamar da vergonha que o revisor nos fez passar na página 154 se algumas páginas antes fomos socorridos pela colocação de um acento que faltava?

Neste caso, acento com c. O revisor (beijos!) confirmou.

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