Martha Medeiros: Recompensa instantânea

As pessoas estão amando com a profundidade de um lava-pés. Esqueça mergulho. Ninguém está com tempo para ir tão fundo

Uma amiga me escreve chorando as pitangas: mais uma história de amor terminou para ela. Eu, que nem sabia que ela estava namorando, de repente descubro que no fim do ano ela conheceu um homem encantador, que ambos estavam no céu, mas ele puxou o freio de mão e sumiu. Diz ela que havia acreditado em cada eu te amo dele, que confiava quando ele dizia sou seu. Que tipo de cafajeste desfaz um romance sólido de uma hora para a outra?

Ela seguiu com o desabafo e eu só pensava num aspecto, aquele que dizia que haviam se conhecido no fim do ano. Se entendi bem, estamos falando de um mês de relação (ela me escreveu dia 22 de janeiro). Eu te amo. Sou seu. Entregues em 30 dias.

Houve um tempo em que as pessoas temiam se comprometer pela palavra. “Te amo” não era xaveco, e sim a declaração de um sentimento raro, que não se distribuía feito senha. Abria um portal. Era um presente ofertado a quem tivesse modificado nosso jeito de estar no mundo, o selo de qualidade de uma relação que não era como as outras. Não que houvesse garantia de amor eterno, óbvio que não, mas dizia-se essa frase para um homem ou uma mulher com quem desejávamos festejar junto um aniversário, ao menos.

Agora “te amo” virou xaveco, sim. Depois de meia-dúzia de WhatsApp: “Te amo”. Sem nem mesmo terem se visto antes.

Quem não gosta de ouvir? Amor é nosso sonho de consumo, é o maior afago que podem fazer ao nosso coração combalido por frustrações e abandonos, é a confirmação de que não suamos a camiseta à toa, alguém percebeu nosso esforço em ser desejável, caiu na nossa conversa, acreditou no nosso empenho em ser engraçadinho: merecemos essa gorjeta afetiva. “Te amo” está valendo uma moeda de 50 centavos.

Ainda assim, é de se lamentar a violência do tombo quando, com a mesma rapidez que o “te amo” foi dito, é retirado de cena e deslocado para outro objeto amoroso, como quem troca de mesa no bar para não ficar tão perto da cozinha. Aquele que se sentia especial descobre-se mais um. Tempos modernos: as pessoas estão amando com a profundidade de um lava-pés. Esqueça mergulho. Ninguém está com tempo para ir tão fundo.

Minha amiga erra ao sentir-se traída pelas palavras: mesmo nós, que fazemos declarações cautelosas, estamos sujeitos a entregar, um dia, nosso “te amo” para outro locatário – é do jogo. Não se pode cobrar pelo o que foi dito, muito menos hoje, nessa era megainstantânea. O Don Juan disse “sou seu” para não cansar minha amiga com explicações, pois fosse menos romântico e mais sincero, teria dito: “Sou seu aqui, em cima do seu corpo, neste momento exato de prazer e gozo, apaixonado por este instante, voraz pela mulher que tenho agora diante do meu rosto, sou seu, meu bem, até que levante e vá ao banheiro escovar os dentes”.

Melhor a síntese.

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