Martha Medeiros: Se você estivesse sozinho

Quem é você em meio a tantos? A camuflagem autoriza o despertar da besta-fera

Faz muito tempo. Um grupo de teatro local apresentava uma peça. Era um texto para paladares exigentes, só que a única coisa que a plateia queria era gargalhar e voltar cedo para casa, ou seja, não estava sendo atendida. A peça era dramática e com um texto infinito – e meio chato. Alguém na terceira fila tossiu porque precisou tossir. Alguém na quinta fila tossiu também, porque o primeiro tossiu: é contagioso. Alguém na última fila tossiu de sacanagem. E aconteceu. A plateia inteira começou a tossir. Era um novo tipo de vaia. Cerca de 40, 50, 60 pessoas tossindo de propósito e ao mesmo tempo. Ninguém mais conseguia escutar o que estava sendo dito no palco. Os atores foram linchados sem derramamento de sangue.

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Estar em grupo é um conforto, mas também é um perigo. Podemos cantar juntos durante um show, rezar juntos durante uma missa, mas também podemos odiar juntos, ser vulgares juntos, fazer besteira juntos. Deixamos de ser um indivíduo responsável pelos próprios atos para nos transfigurar numa massa espessa sem identidade – “todos” e “nenhum” se confundem.

Quem é você em meio a tantos? A camuflagem autoriza o despertar da besta-fera.
Antes de se deixar levar pela horda, valeria a pena se perguntar: se eu estivesse sozinho, faria o mesmo?
Se você estivesse sozinho, teria praticado bullying contra a gordinha do colégio?
Se você estivesse sozinho, teria experimentado aquela droga pesada?
Se você estivesse sozinho, teria partido para cima do torcedor do time rival?
Se você estivesse sozinho, teria saqueado o caminhão tombado no meio da estrada?
Se você estivesse sozinho, teria tacado fogo no ônibus?
Se você estivesse sozinho, teria humilhado o calouro da universidade com aquele trote?
Se você estivesse sozinho, teria amarrado aquele cachorro no cano de descarga de um carro?

Diversão é um conceito muito elástico. Para arrancar algumas risadas, nos tornamos idiotas. Para ser aceito no grupo, somos capazes de infringir leis. Para demonstrar que não temos medo, desafiamos perigos e corremos riscos tolamente, misturando-se a ogros sem consciência. Corajoso é quem interrompe a onda destrutiva, não faz quórum para as estupidezes alheias e continua agindo como agiria se estivesse sozinho, sem o respaldo da massa.

Ninguém é mais criança. Um adulto que se mete em encrenca para depois poder alegar “foi ele que começou” está apenas se escondendo atrás do slogan dos covardes.

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