Martha Medeiros: Sessão de autógrafos é um evento democrático

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Sessão de autógrafos é um evento democrático. Anuncia-se a presença do escritor na livraria e pronto. Não tem que se inscrever, pagar ingresso, pegar senha. É só chegar e entrar na fila com o livro na mão, esperando a vez de ganhar sua dedicatória. Nem precisa comprar nada, há quem traga um exemplar que já tenha em casa. Há quem leve apenas um pedaço de papel para receber o autógrafo. Há quem entre na fila só para fazer uma selfie. Há quem aproveite a muvuca para roubar o escritor – sério, já levaram uma bolsa minha durante uma sessão de autógrafos. Há o maluco de estimação, que escritor não tem o seu? O doido tem certeza de que você é apaixonada por ele e que tudo o que escreve é uma mensagem cifrada (por via das dúvidas, mantenha o segurança alertado). Há os fiéis que nunca te abandonam (amamos vocês). Há os que, em vez de dizerem o nome, perguntam “lembra de mim?” (odiamos vocês). Vai o ex-namorado com a namorada nova, os primos em quarto grau que a gente não reconhece, um ou outro VIP pra alegria do fotógrafo, pessoas que saíram tarde do trabalho e ainda assim passaram lá só pra nos ver. É um troço que emociona.

Já fiz sessões de autógrafo por todo o país, vi de tudo, mas, na mais recente, surpresa: havia um morador de rua na fila. Destoava, claro. Barba até o umbigo, meio sujo, aquele rosto de quem não leva vida fácil e nada tem a ver com o ambiente – mas tinha. Quando ele se aproximou, apertou minha mão e se apresentou. Tinha sobrenome de família quatrocentona, uma elegância que até humilhava. Não vou identificá-lo, pois não sei qual é a história de vida dele e se lhe interessa esta exposição. Foi discreto, educado, um lorde. Quem esperava um delinquente apostou errado.

Ao término da sessão, corri atrás de informações com o pessoal da livraria. Soube que ele está próximo dos 80 anos. Escuta no rádio as entrevistas de seus autores preferidos e memoriza o dia, a hora e o local do lançamento – se tiver bate-papo antes, ele prefere. Se for livro sobre esporte, gosta mais ainda. Paga pelos livros, o que demonstra que esmolas estão valendo mais do que os salários parcelados do funcionalismo. Não tem endereço nem profissão, vive por aí. Não se sabe onde guarda os livros que compra. Já tentaram barrá-lo na entrada de shoppings pelo seu aspecto “ameaçador” (como se bandido obedecesse a um dress code), mas, serenamente, ele argumenta que irá apenas buscar um autógrafo, qual o crime? Estar sem o banho em dia? Com a mesma roupa há seis meses? Em Porto Alegre, virou figura folclórica, ninguém o incomoda mais. E tê-lo na fila, vai dizer, é um privilégio. Um morador de rua que lê mais do que moradores de cobertura. Me dê outra definição de esperança.

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