Martha Medeiros: Somos eternas crianças e ninguém se liberta totalmente da sua candura

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Homens defendem seu time, seu partido, mas engrossam mesmo quando alguém xinga a mãe. É a injúria suprema, nada pode ser mais ofensivo. Se você falar mal da mãe de uma mulher, ela não fará tanto escarcéu, é capaz até de concordar com as críticas do ofensor e eles acabarem dando boas risadas juntos, mas, para os homens, esse é um ponto muito sensível – é ali que reside o sagrado da sua infância. A genitora será para sempre a rainha do seu reino, e ele, o eterno menino.

Para as garotas, a conexão com a infância é outra. Apesar de já não sermos condicionadas pelos contos de fada, o nosso inconsciente ainda guarda resquícios de uma cândida fantasia: a de nos realizarmos através de um príncipe que dará sentido às nossas vidas. O amor romântico é a nossa rainha mãe.

Eu sei, eu sei que hoje nos realizamos através do nosso trabalho e da nossa independência, e, se surgir um príncipe ou princesa, maravilha, pacote completo. Mas este é o nosso racional falando, não a nossa menininha interna, aquela que teve quatro aninhos em plena dinastia Disney.

Como escritora, vivi duas experiências em que profanei o legado da infância feminina. A primeira foi em 2001, quando escrevi uma crônica zombando de mulheres que no alto de seus 40 anos ainda colecionavam bichinhos de pelúcia. Sofri meu primeiro ataque de haters: muitas leitoras pediram minha cabeça.

Na hora, não entendi a repercussão agressiva, até que alguém me sinalizou: os bichinhos de pelúcia são a ligação com o nosso sentimentalismo, com a nossa ingenuidade, com tudo o que vamos perdendo durante o caminho hostil rumo a uma maturidade sem sonhos. Humm.

A segunda vez foi dias atrás, em que, num comentário sobre o casamento de Meghan e Harry, eu disse que a liberdade me parecia mais valiosa do que uma vida de princesa em que nem cruzar as pernas em público pode. Pra quê. Fui chamada de recalcada pra fora. Foi por ter tido o atrevimento de opinar? Não, opinar é minha profissão há 24 anos. Foi pelo atrevimento de macular, mais uma vez, o sagrado da nossa inocência. Se tirarem nossas ilusões, sobrará o quê?

Concordo que é preciso manter um vínculo com a pureza. Somos eternas crianças e ninguém se liberta totalmente da sua candura. Se o bichinho de pelúcia tornou-se um talismã, se o casamento monárquico nos reconduz para os filmes da Cinderela, não há nada de errado com isso, desde que não sejamos tão nostálgicos a ponto de achar que só as crianças têm direito ao encantamento. A etapa adulta também é muito lúdica, com seus personagens de verdade e diversões fora do castelo. Sobra muita coisa quando as ilusões infantis se desfazem. Sobram a nossa coragem, o nosso protagonismo, o tesouro de uma vida realmente vivida, e não imaginada. Por que isso seria tão assustador? Não há mais monstros embaixo da cama, e a luz está acesa para quem quiser descobrir que crescer também é mágico.

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