Martha Medeiros: Somos todas divas

Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Até mesmo as mulheres mais estonteantes do planeta passam por momentos tensos em frente ao espelho. Nunca estamos 100%, ao menos não na nossa própria avaliação. Digo “nossa” a fim de englobar o gênero feminino, e não a classe específica das estonteantes, coisa que nunca fui. Bem que eu queria ser lindona, mas não me coube essa sorte e tudo certo. A beleza pode ser substituída por charme, por sensualidade, por exotismo, por maturidade, por mil outros atributos. Jamais sonhei em ser clone da Barbie, uma perfeitinha sem expressão. Ando ocupada com questões mais relevantes, porém, claro, adoraria ser bonita, e não interessante, o eufemismo clássico para quem não chegou lá.

Calma. Está tudo bem. Ninguém cortando os pulsos por aqui.

A maioria das mulheres é bela. As brasileiras são exuberantes e atraentes em toda a sua diversidade. Negras, brancas, crespas, lisas, gordas, magras. Eu percebia isso já na sala de aula, criança ainda. Cada menina tinha sua graça. Eu me sentia o patinho feio entre todas elas e, como namorava menos, tinha solidão de sobra para me dedicar aos livros, que foram meus verdadeiros affairs da adolescência.

Ao menos era alta e tinha um corpo bacana, mas isso não era suficiente pra ser a primeira opção nas reuniões dançantes. Então os anos passaram e meu cabelo melhorou, minha cabeça melhorou, a vida melhorou, e por fim descobri que a atração entre um casal pode ser dar por outros caminhos, tanto que tive namorados, casei, descasei, segui namorando e me tornei o grande amor de mim mesma, a relação essencial que alavanca todas as outras. Mas, entre mim e meus botões, às vezes ainda lamentava: quem dera ser gata.

Até que surgiram as redes sociais e o autobullying chegou ao fim. Hoje, nem mesmo a irmã gêmea do Quasímodo tem do que reclamar. Somos todas divas.

A criatura acorda às sete da manhã com o rosto inchado pelas 26 long necks que entornou na noite anterior. Posta uma selfie de ressaca, coberta de olheiras, e adivinha os comentários: Lindíssima! Poderosa! Lacrou!

Se você tem um pouco de noção, deleta a foto da ressaca e posta a foto em que está com o cabelo estrategicamente cobrindo metade do rosto: Musa! Deusa! Arraso!

Você tem 96 anos, com aparência de 104, está deformada por uma dúzia de plásticas e posta um autorretrato mesmo assim, pois anda meio gagá e já não enxerga quase nada: Gatíssima! Avião! Perfeita!
Não é o paraíso? Se a gente não está num dia bom, é só escolher a melhor foto entre as duzentas que tirou no fim de semana, caprichar no enquadramento e postar com a legenda: “sem filtro”. E então começar a contar os “uau” pipocando um embaixo do outro. Não existe mais mulher feia nem com baixa autoestima – a não ser que ela não tenha seguidores.

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