Martha Medeiros: Tudo o que a gente quer é agarrar em alguma coisa para sair de uma vida atolada

Foto: Edu Oliveira
Foto: Edu Oliveira

Quando menina, nunca olhava embaixo da cama a fim de conferir se havia algum monstro aguardando que eu apagasse a luz para só então me atacar. Bicho-papão era coisa que não me apavorava, mas eu tinha um medo absurdo de areia movediça, como se isso fosse um perigo menos fantasioso do que monstros embaixo da cama. Ficava em pânico quando via cenas de filmes em que alguém caía numa poça melequenta e, sem conseguir nadar, ia sendo tragado aos poucos para o fundo. Help, um salva-vidas! Não havia. Até que, subitamente, alguém surgia com uma corda e resgatava a vítima que, a essa altura, estava apenas com as duas mãos para o lado de fora.

Aí eu cresci. E admito, encabulada, mesmo grandinha ainda passei boa parte da vida me perguntando: quem é que vai aparecer com a corda? Porque tem hora que você se sente bem assim: num lodo, enterrada até a cintura, sem ninguém por perto para puxar você pelo braço, para te alcançar uma boia, para jogar um cipó. Como é que você foi parar nesse lamaçal? Ah, pois é.

Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha correndo naquela direção, no meio da mata fechada, assustada por achar que estava sendo perseguida por algum animal selvagem, e então corri, corri tanto que quando vi, tchibum, caí nesse areal movediço desgraçado, e a margem, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais das minhas possibilidades. Estou imobilizada pela força sugadora desse buraco maligno. Quantas vezes isso já nos aconteceu? Metaforicamente, é claro.

Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha fugindo da minha verdadeira identidade, sem coragem para ser uma pessoa mais original e livre, assustada por achar que não daria conta de viver fora dos padrões, e então corri, corri tanto que, quando vi, tchibum, caí nessa rotina movediça desgraçada, e o meu sonho de ser eu mesma, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais da minha realização. Estou imobilizada pela força sugadora das minhas escolhas covardes.
Ou.
Sabe como é que foi, seu moço, eu conto: vinha correndo na direção oposta a um amor que me exigiria muita dedicação e entrega, corri evitando todos os desejos que tentavam tomar posse do meu corpo, assustada por achar que não daria conta de tanta intensidade, de tanto sentimento, e então corri, corri tanto que, quando vi, tchibum, caí nessa mesmice movediça desgraçada, e a minha grande paixão, que seria facilmente alcançável com duas braçadas, ficou longe demais da minha realidade. Estou imobilizada pela força sugadora dos convencionalismos.

Tudo o que a gente quer é agarrar em alguma coisa para sair de uma vida atolada. Um novo amor. Um novo projeto. Uma viagem. Religião. Astrologia. Terapia. Curso tântrico. Uma corda. Qualquer corda.

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