Martha Medeiros: As enjambradas

Ela era uma menina do interior e nunca tinha ido a um baile de carnaval nem sabia direito o que era. Até que chegou o dia. Colocaram nela um vestidinho colorido, um adereço qualquer na cabeça, deixaram que ela se maquiasse um pouquinho e a levaram ao baile, não sem antes passar na casa das primas, que iriam juntas. Ao chegar lá, a menina deparou com duas rumbeiras trajadas com vestidos longos, muitos babados, brilhos, turbante, pedrarias. As primas pareciam que iriam a uma festa de gala, enquanto a menina estava apenas enfeitadinha para pular e dançar – o que aconteceu com algum muxoxo, visto que todos os foliões também estavam neste nível Clovis Bornay de luxo, ao menos aos olhos dela, a enjambrada.

Sei bem o que ela sentiu. Quando criança, eu também era a enjambrada nas comemorações de São João do colégio. Enfiava um chapeuzinho de palha e bora ser feliz, mas como? As meninas iam todas vestidas de prenda e com tranças que caíam pela cintura (acho que já existia aplique naquela época). Enquanto isso, eu era a própria caipira, de fato.

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Sempre destoei em festas, e no Carnaval infantil não era diferente. Quase em todos os bailes fui fantasiada de índia (physique du rôle) e não duvido que achassem que eu era mesmo da tribo dos caingangues, pois enquanto usava um pano cru, fazia umas pinturas no rosto e colocava uma pena na cabeça, as outras índias vestiam trajes 100% camurça e tinha índia até de cetim. Eu era como aquela menininha do interior a quem bastava o espírito da diversão para fazer a festa funcionar, até descobrir que a vida em sociedade não é bem assim. Aliás, comentei? Aquela menina do primeiro parágrafo era minha mãe.

E como cultura familiar é um troço poderoso, aconteceu de eu ter duas filhas que quando crianças também iam a festas à fantasia e adivinhe: por mais que eu tenha tentado romper o ciclo das enjambradas e as ajudasse a se transformar nas odaliscas e fadinhas mais lindas do universo, não adiantava: sempre havia as famigeradas “rumbeiras” soltando  purpurina pelos ouvidos e ofuscando o resto da criançada com uma quantidade cavalar de paetês.

Até hoje, não me sinto eu mesma quando me arrumo para uma grande festa (em que toda mulher se “fantasia”, de certa forma). Sempre me acho mais bonita de jeans do que a bordo de um modelito Jessica Rabbit. Antes de sair de casa para uma cerimônia de casamento, uma entrega de prêmio ou qualquer coisa que exija um visual causador, me olho no espelho e penso: valeu a tentativa, garota. Só que a imagem não me reflete. Sou boa no quesito adequação, ou seja, sigo corretamente o dress code de cada evento, mas obediência, apenas, não adianta. Está no sangue a alma de menina enjambrada. Só a simplicidade traduz perfeitamente o que me vai por baixo da pele.

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