‘Meu amigo vem sendo corneado, aviso?’

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Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar Foto: Ricardo Wolffenbüttel

“Tenho um amigo que namora uma menina um pouco fora dos padrões de beleza (ela pesa uns 120 quilos e mede 1m65cm). Acho que deves imaginar a figura! Mas o detalhe é que, mesmo desse tamanho, ela está traindo ele. Coitado, ele está feliz com ela. Acho que se ele descobrisse ficaria muito triste. Daí estou nesse dilema: não conto para ele e deixo ele viver essa felicidade. Ou conto e faço com que parem com as brincadeiras que fazem pelas costas do rapaz, dizendo que ele já tem vaga garantida no Rodeio de Barretos.

Beijo, Bete”

Querida Bete,

Não há sentido em denunciar a infidelidade de amigos, seja contra, seja a favor.

É invasão de privacidade. Dificulta a reconciliação pois pressiona a tomada de uma punição social. O traído é condicionado a se separar para não ser taxado de idiota entre os familiares e conhecidos. Perdoar ou não a traição é uma decisão pessoal corajosa. Não deve ser influenciada por fatores externos. Depende da história do casal, do envolvimento, do pacto de confiança e lealdade. O silêncio colabora para a cicatrização. Muitas vezes quem é traído já sabe e está elaborando uma maneira de abrir o jogo com a infiel. A intromissão alheia pode modificar as intenções. Cada um tem seu tempo, sua medida, sua tolerância.

Sob o pretexto de aliviar o colega da roubada, acentuará a tensão do julgamento.

Tampouco contaria para não perder a amizade. Ficará estigmatizada pela fofoca. Ele vai se afastar de você já que estará ligada a uma vergonha do passado. Todo mensageiro de infortúnio acaba recebendo a pecha de agourento. O hábito é se distanciar da pessoa como forma de se proteger do trauma.

Mas vejo que a raiz do dilema é outra. Ama seu amigo e torce pelo término da relação. Não está se controlando para entregar a moça e estragar a alegria da dupla.

Trabalha o caos como sua grande chance de investida amorosa. Quer transformar a tragédia em triunfo da esperança. Busca revelar o infortúnio, consolar e substituir a namorada. Mas a função de desmascarar jamais recebe recompensa masculina, apenas descrédito.

Nem consegue disfarçar o tamanho do seu sarcasmo (sarcasmo é felicidade do mal). Seu tom é de deboche, de ferrenho preconceito, como se ele não pudesse namorar alguém com 120 quilos e 1m65cm. Ataca a aparência dela gratuitamente. Ele já teria escolhido errado desde o princípio, experimentando uma cegueira dupla (de imagem e caráter). Manteria uma história com uma mulher feia, gorda, que não combina com sua personalidade. É o mesmo que desabafar:

– Eu sou muito melhor, por que ele não está comigo?

A inveja é ciúme. Avacalhando sua atual parceira reforça a disseminação das brincadeiras nas costas do coitado.

Se ele é um touro no Rodeio de Barretos, qual seria seu papel?

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