Viviane Bevilacqua: nós e os folgados

Você mudaria alguma coisa na educação de seus filhos se pudesse voltar atrás? Com certeza muitos pais _ especialmente as mães _ responderiam “sim” a essa pergunta, mesmo que não tivessem coragem de falar isso em voz alta. Até porque gostamos de nos vangloriar dizendo que soubemos criar muito bem os nossos pimpolhos, e ai de quem ousar nos contrariar.

Pois essa história de educação familiar está martelando na minha cabeça desde o dia em que ouvi o psiquiatra e educador Içami Tiba, um dos nomes mais influentes desta área no Brasil, falando sobre o modo como educamos os nossos filhos _ e quantas vezes pecamos, principalmente pelo excesso, achando que estamos fazendo o certo.

Um exemplo? A criança tem os melhores brinquedos, roupas de grife, a escola mais cara, presentes e mais presentes. Os pais justificam tanto consumismo: “Quero que meu filho tenha tudo o que eu não pude ter”. A intenção é a melhor possível, mas o resultado geralmente não. Muitas vezes a criança não faz por merecer, mas mesmo assim ganha tudo o que quer. Ela está acostumada a ter todas as suas vontades satisfeitas, ainda que não tenha cumprido com os seus deveres (estudar, fazer a lição, arrumar o quarto…). Será muito difícil convencê-la, mais tarde, de que é preciso merecer para ser recompensado.

“É assim que nascem os folgados”, diz Içami Tiba, referindo-se aos filhos que ficam olhando as mães juntarem os brinquedos esparramados no chão, os tênis e meias jogados no meio da sala, os copos e pratos deixados em cima da mesa. A mãe manda a criança juntar e guardar no lugar. Ela enrola, enrola e não faz. Aí vem a mãe e diz: “Ah, pode deixar então que eu junto.” Ela vai lá e faz, e o filho fica só olhando. “Pronto, era exatamente isso o que o folgado queria. Ele está vendo que alguém faz o que o que ele não fez, e não é assim que se educa. Para aprender, a pessoa precisa sair da sua zona de conforto”, afirma Içami. Raramente exigimos isso dos filhos, embora todos saibamos que, para educar, deve-se motivar, ensinar e cobrar resultados.

Esta historinha lhe é familiar? Eu confesso que disse “deixa que eu faço” várias vezes aos meus filhos _ e vou mais longe: mudou pouco hoje em dia, embora eles não sejam mais crianças. Talvez se eu tivesse conhecido as ideias de Içami naquela época teria agido diferente e segurado meu ímpeto. Mas, antes tarde do que nunca, aprendi a lição: “quem ouve, esquece; quem vê, imita; quem justifica, não faz; quem faz aprende; e quem ama, educa. Palavras do mestre.

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