O AMOR NECESSÁRIO

Eu já tinha notado os dois dentro da loja. Ele empurrava a cadeira de rodas, enquanto ela, mesmo sentada, escolhia algumas peças de roupa. Depois, os encontrei em frente aos provadores. O homem tentava explicar à vendedora que precisava entrar com a mulher, pois precisava ajudá-la a se vestir.

– Mas senhor, o provador é feminino, têm muitas mulheres aí dentro, como vou deixá-lo entrar?

A moça estava realmente sem saber o que fazer. O marido explicou, mais de uma vez, que a mulher não conseguia experimentar as roupas sozinha. Ela precisava de ajuda principalmente para vestir a calça jeans que queria comprar.

– Vocês deveriam ter um provador para cadeirantes, porque eles também são consumidores e têm os seus direitos – reclamou o marido, e com toda a razão.

– Deixa, então, não vou levar nada – falou a moça, com a voz baixa, mas bastante calma, resignada com a situação.

Imaginei que não deveria ser a primeira vez que ela vivia uma cena como aquela.

Quando eu ia me oferecer para ajudá-la, embora eu não tivesse a menor ideia de como fazer isso, a vendedora resolveu o impasse: o provador masculino estava vazio, eles poderiam utilizá-lo. E se aparecesse algum homem, ela pediria para aguardar um pouquinho. Os dois entraram na sala.

Fiquei pensando em quantos problemas ela já deve ter enfrentado por ser cadeirante e ter o movimento das pernas bastante limitado. Depender dos outros para tudo deve ser muito difícil, mas, pelo jeito, o homem ao lado dela é um grande parceiro. Sorte dela.

Ele a ajudou a escolher roupas, separou tamanhos, carregou sacolas, deu palpites e, principalmente, sorriu para ela o tempo todo. Parecia que tinha prazer em estar ali, cuidando e ajudando a sua mulher.

Se acompanhar a namorada ou esposa no shopping é um suplício para a maioria dos homens, para aquele parecia ser um prazer poder fazer isso, por mais que, no fundo, ele preferisse estar sentado no sofá da sala assistindo pela TV o jogo do seu time, acompanhado de uma cervejinha bem gelada.

Voltei a encontrá-los mais tarde, no café daquele andar do shopping. Conversavam animadamente, de mãos dadas, enquanto provavelmente aguardavam o seu pedido. Saí de lá com uma sensação boa, a de que nem tudo estará perdido enquanto ainda houver amor.

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