Clara Averbuck: O homem nu e a hipocrisia desenfreada

Foto: Pixabay
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Eu queria, sinceramente, escrever sobre a cachoeira que conheci perto de Uberlândia, em Minas Gerais. Sobre esses lindos dias que tenho passado com meus amigos cantando minhas músicas que eu jamais deveria ter deixado de produzir. Sobre como é legal e também solitário quando você chega da estrada para um quarto inóspito de hotel e tem esses momentos a sós, a sós.

Mas aí o país entra em frenesi por causa de uma performance de nu em que uma criança encostou no cara. O cara era o Wagner Schwartz, conhecido artista mineiro, que mora atualmente em Paris. Veja bem: uma criança interagiu com um homem nu, durante uma performance em uma galeria de arte, diante de outras pessoas, com zero cunho sexual, apenas nudez.

O mundo caiu, senhoras e senhores, caiu. Um homem nu! Uma criança encostou nele! É pedofilia!

Prende! Mata!

As pessoas realmente enlouqueceram.

Em primeiro lugar: um artista nu em uma performance ter sido encostado por uma criança não é “pedofilia”. Tem um povo adorando usar esse termo, não é mesmo? Tudo é pedofilia. Então vamos ver o que isso significa?

F65.4 Pedofilia
Preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes ou no início da puberdade. É uma doença que consta no CID e a fonte é o DataSus.

Então: um homem em uma galeria, numa performance artística, ser encostado por uma criança em contexto não sexual não tem nada a ver com pedofilia.

Cabe dizer que nem todo abusador de crianças é pedófilo. Alguns são apenas abusadores mesmo, parte de uma cultura que trata o abuso de vulneráveis como algo corriqueiro. Há pedófilos que jamais tocaram uma criança.

Então: pedofilia é uma doença. Abuso infantil é abuso. Um homem nu em uma galeria de arte não é nem uma coisa, nem outra. É uma performance. Se você gosta ou não dessa performance, isso pouco importa. Se não gosta, não vá; se não gosta de arte nenhuma, vá ao shopping. Se não gosta de sair, fique em casa lendo uns livros, contando uns ladrilhos, separando umas meias.

Incrível, também, foram os súbitos defensores do Estatuto da Criança e do Adolescente que apareceram, assim como sempre surgem advogados, psicólogos, juízes e muitos outros Doutores da Faculdade do Facebook. Como escreveu a psicóloga Camila Kfouri: “Mas quantos defensores do ECA uma performance artística fez surgir! defensores do ECA por todos os lados! que beleza, amiguinhos!

Estamos esperando vocês desde 1990! Já tínhamos até desistido de esperar e estávamos quase conformados com o fato de que o ECA jamais passaria de uma carta de intenções, tipo o que aconteceu com a Constituição, sabe? Mas agora vocês surgem do nada e nos enchem de esperança! Vão somar com a gente na luta contra a redução da idade penal, não vão? E claramente vão também ajudar a fazer valer aquela parte bem bonita que fala sobre a proteção integral da criança, saúde, educação, direito à cidade, à convivência familiar e comunitária. Poxa, sejam bem-vindos!”.

Ah, ela também mandou lembrar que não se usa mais a expressão “menor”, ok? É criança que chama. De nada.

Cresci no meio do teatro. Vi gente pelada se trocando em camarim a vida inteira. Provavelmente encostei em alguém, ó, que horror! É 2017, e a nudez não deveria mais ser tabu. Aliás, não é: não quando o corpo feminino nu é usado para vender produtos, por exemplo, ou rebolar no Carnaval. Muito curioso.
Apenas parem de usar “as crianças” como desculpa para que saiam os monstros moralistas e hipócritas que vivem em muitos. A perversão está em suas cabeças e esse comportamento de manada é assustador. Vai ter muita gente pelada sim, viu? Nudez não é perversão e deveria ser visto como algo natural, mas cada dia que passa eu acho que passou para trás e que logo mais chegaremos em 1953.

Inclusive, gostaria de dividir: estou escrevendo esta coluna usando traje algum. Talvez eu monte uma performance escrevendo nua em um museu enquanto projeto os comentários de portal nas paredes à minha volta. Bom fim de semana a todos!

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